PÁSCOA É TEMPO DE SAIRMOS!

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Hb 13.11-14: Porque os corpos dos animais, cujo sangue é trazido para dentro do santo lugar pelo sumo sacerdote como oferta pelo pecado, são queimados fora do arraial. Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta. Saiamos pois a ele fora do arraial, levando o seu opróbrio. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a vindoura.

Estamos nos aproximando da Páscoa. Essa é, com certeza, uma das maiores festas cristãs (junto com o Natal). É natural que, nesses dias, nos lembremos do sacrifício de Cristo na cruz. A TV mostra filmes que retratam seu sofrimento. Em nossas igrejas, temos cultos alusivos ao que Cristo fez na cruz. Ouvimos mensagens que nos fazem recordar o que ele passou por amor a nós. Não tinha como escrever um texto essa semana e não fazer referência a esse evento que foi um marco na história da humanidade. Mas gostaria de dar um passo além…

O texto de Hebreus que separei para essa meditação inicia mostrando a humilhação pela qual o Senhor Jesus passou. Assim como era representado pela morte dos animais no Antigo Testamento, seu sangue foi derramado e ele, como algo impuro por ter recebido sobre si os nossos pecados, foi sacrificado fora do arraial. O autor de Hebreus está fazendo uma comparação com o ritual instituído em Lv 16.27, referente a oferta no Dia da Expiação. Dessa oferta, diferente das demais, não se aproveitaria a carne ou o coro dos animais para os sacerdotes. Era considerado impuro e, por isso, deveria ser queimado fora do arraial.

É significativo, então, que o autor de Hebreus associe Jesus como a oferta do Dia da Expiação. De fato, foi exatamente isso que ele era, não mais em um sentido figurado, mas pleno e real. Ele se deu, assumiu a impureza da nossa iniquidade e foi sacrificado para “expiar” os nossos pecados! Cristo sofreu fora das portas, como um impuro pecador, para que os nossos pecados que foram colocados sobre ele pudessem ser cobertos pelo seu sangue e, assim, fossemos considerados justos diante de Deus. Além do sofrimento físico, você pode imaginar a humilhação que envolve ser levado para fora da cidade, sob uma pena de morte de cruz, a vista de todo o povo e recebendo as ofensas. Seu sofrimento envolvia a dor física pela cruz, a dor emocional pelo desprezo do povo e a humilhação pública e a dor espiritual por ter recebido os nossos pecados sobre si e, consequentemente, ficar momentaneamente afastado do Pai. Foi uma dor terrível, inimaginável e ele fez tudo isso por amar a mim e a você! Que amor impressionante! Que desprendimento constrangedor!

Mas o autor de Hebreus nos diz que há uma atitude esperada de nós a partir do que Cristo fez. O verso 13 diz: “Saiamos pois a ele fora do arraial, levando o seu opróbrio”. A NVI traduz como “levando a vergonha que ele suportou”. Não temos como levar o peso que ele levou. Somente um Deus-Homem santo e perfeito poderia fazer o que foi feito. Mas, ainda assim, somos chamados a sair após ele, carregando a vergonha que ele suportou. Isso quer dizer que, por mais que pareça loucura, não podemos nos envergonhar da vergonha que ele experimentou. Precisamos caminhar na sua direção, mesmo que tenhamos que suportar afrontas e humilhações, sempre seguindo os seus passos e nos identificando como seus discípulos.

O mundo tenta, muitas vezes, nos envergonhar por levar o nome de Cristo. Podemos ser zombados e perseguidos, humilhados e afrontados, inqueridos e até mesmo agredidos, mas não podemos deixar de mostrar ao mundo que, mesmo assim, desejamos e nos esforçamos por ir até ele fora do arraial. Quem se esforçaria para ser agredido ou humilhado publicamente? Quem desejaria isso e empenharia sua vida por uma causa que implicasse em oposição direta e frequente? Só mesmo quem foi impactado de forma tão decisiva por algo que é incapaz de negar aquilo que aconteceu com ele. Somente quem tem uma esperança muito maior do que os benefícios que serão tirados pela oposição e a afronta.

E essa esperança aparece no verso 14 que lemos no início. Podemos segui-lo para fora do arraial porque não pertencemos a esse arraial! Somos de outra cidade, uma cidade eterna e superior. Uma cidade vindoura que nos aguarda e é supremamente melhor do que o arraial do qual saímos seguindo a Cristo. Se olhamos para essa cidade celestial como a nossa verdadeira pátria, se nos vemos como peregrinos e forasteiros nessa terra, se sabemos que Cristo é o caminho que nos conduz até lá, então não há razão para querermos nos segurar a esse mundo, mantendo-nos dentro desse arraial, se nosso Mestre caminha em outra direção.

Entenda. Não desprezo esse mundo em que habitamos e tenho bem claro que a vida é um presente de Deus. Não tenho tendências gnósticas para imaginar o mundo físico como algo mau e desejar me libertar para um mundo bom. Deus é o criador dessa existência que experimentamos aqui e ele mesmo disse que é “muito bom”. Quero, apenas, destacar que, como um homem que vende tudo o que tem para conseguir um tesouro valiosíssimo ou uma pérola inestimável (Mt 13.44-46), nossa identidade cristã é muito mais valiosa que a busca por aceitação dos homens. Seguir a Cristo, mesmo que traga humilhação e vergonha, é muito superior a seguir os homens debaixo de aplausos.

É verdade que a Páscoa nos faz olhar para trás e nos lembrar do sacrifício de Cristo. Mas a Páscoa também deve nos fazer olhar para frente e nos lembrar que precisamos seguir os passos do Mestre, incluindo os sofrimentos e as humilhações, na esperança da nossa pátria eterna e gloriosa. A Páscoa nos faz olhar para nós mesmos e perceber em que nível temos sido impactados pela mensagem da cruz e como está nosso envolvimento com ela.

Desejamos ouvir do sacrifício de Cristo simplesmente para nos confortar com relação aos nossos próprios pecados ou para nos impulsionar a estarmos dispostos a abrir mão da nossa vida por amor a ele?

Páscoa é tempo de sairmos! É tempo de sairmos do conforto da aceitação dos homens para nos colocarmos como aqueles que falam a verdade, mesmo que isso traga oposição. É tempo de sairmos da posição passiva de ouvintes da palavra para uma posição ativa de proclamadores da mensagem do evangelho. É tempo de sairmos dos templos para alcançarmos os perdidos onde eles estiverem. É tempo de sairmos de uma vida centrada em nós mesmos, que não está disposta a sofrer riscos, para uma vida centrada em Cristo, mesmo que isso nos custe tudo.

Como disse Spurgeon, “Será que um homem que ama seu Senhor estaria disposto a ver Jesus vestindo uma coroa de espinhos, enquanto ele mesmo almeja uma coroa de louros? Haveria Jesus de ascender ao trono por meio da cruz, enquanto nós esperamos ser conduzidos para lá nos ombros das multidões, em meio aos aplausos? Não seja fútil em sua imaginação. Avalie o preço, e, se você não estiver disposto a carregar a cruz de Cristo, volte a sua fazenda ou ao seu negócio e tire deles o máximo que puder, mas permita-me sussurrar aos seus ouvidos: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?

Boa Páscoa!

 

Rodrigo Suhett de Souza

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