• O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
  •  21 2418-7141

“Não se engane; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso ceifará.” Gl 6:7

N
estes dias, lembrei-me de uma história um pouco engraçada que aconteceu comigo alguns anos atrás. Costumávamos nos reunir com os irmãos da igreja durante o período de carnaval. O propósito era que passássemos juntos orando e estudando a Palavra de Deus. Mas, confesso que, como adolescente que eu era, gostava muito mais das brincadeiras que ocorriam nos momentos de lazer que dos momentos das reuniões das quais eu (por vezes) tentava fugir. Certo dia, alguns colegas me convidaram para ir até seu quarto (não me lembro se durante o horário de reunião) e aceitei o convite sem titubear. Ao ver a porta fechada, fui logo abrindo e entrando. Não sabia como eles tinham conseguido fazer aquilo, mas a quantidade de chinelos e sapatos que caíram sobre minha cabeça naquele momento, fizeram com que eu me sentisse em uma sapataria desmoronando em cima de mim. Pareciam ter contado um número e me perguntaram se eu queria participar, dizendo que teria que arrumar alguém para ser enganado também. O que acham que eu fiz? Fui atrás da próxima vítima, mas não me lembro de ter sido tão bem sucedido como meus colegas.

            Hoje em dia, não penso que os adolescentes sejam como os de minha época, acredito que são bem mais centrados nestes encontros. Essa lembrança me fez pensar em algumas coisas que se relacionam ao que quero falar hoje. Parece que ninguém está imune a ser enganado, ou iludido. Trabalhei por 16 anos na área de TI e lembro como o departamento de Segurança da Informação era sempre o mais movimentado, por conta da necessidade de manutenção contra invasores no sistema da empresa. Eu costumava pensar que o problema estava na quantidade de vírus que eram produzidos, mas a pergunta fatal era: Contra quem estamos lutando aqui? Eram as pessoas que cada vez mais se tornavam especialistas em enganar, trair, iludir as outras. Conheci algumas pessoas nesse mesmo local que viviam vidas duplas sem que nunca deixassem pistas de quem realmente eram. Eles se julgavam bons o bastante para obterem o bem de um lado, passando imagem diferente, de outro. Alguns roubaram a empresa por anos, alterando os bancos de horas-extras em seu favor e ganharam muito dinheiro, que só tomamos conhecimento quase 10 anos depois - quando foram pegos pela auditoria. Outros designavam como dependentes amantes e suas famílias, para que obtivessem o benefício do plano de saúde. A raça humana se tornou realmente especialista em enganar os outros.

            No entanto, desde que o primeiro homem pecou uma coisa é muito clara. Deus não está no grupo de pessoas que está suscetível ao engano dos homens. Ao se deparar com a oportunidade de transferir a alguém a responsabilidade que era apenas sua, Adão viu Deus interrogar a cada um dos participantes do evento de onde ocorreu o primeiro pecado, mas também o viu punir apropriadamente a cada um por sua responsabilidade. Não foi possível e nunca será possível enganar a Deus.

             Paulo utiliza a palavra muktērizō neste versículo e quer dizer literalmente apontar o nariz para o outro lado, ou a boca fazendo biquinho, como se estivesse ridicularizando ou não dando o mínimo crédito para aquele a quem se dirige. Na Língua Inglesa, o verbo utilizado para traduzir na maioria das versões foi mock, que quer dizer zombar, mofar, escarnecer, remendar/imitar. O apóstolo utiliza esse trecho em conjunto com toda carta e sua preocupação é que sejam coerentes diante daquilo o que têm aprendido. O Evangelho havia sido anunciado a eles e passado não muito tempo estavam demonstrando atitudes incompatíveis com a graça que receberam. Nesta carta, Paulo rememora aos leitores que as obras da carne são diferentes das obras do Espírito. Ele enfatiza a vida como um grande campo onde estamos semeando e não existe outra opção: Aquilo o que semeamos produzirá frutos que logo colheremos.

            A expressão fala que para cada ação que fazemos existe uma consequência. Este paralelo é enfatizado pelo apóstolo por meio da apresentação de que existem apenas dois campos em que se poderia semear. O homem só pode semear na carne ou no Espírito. No âmago desta afirmação está a certeza de que existem apenas dois tipos de ações que são rotineiramente desempenhadas pelos homens, as que são feitas para Deus e as que não são feitas para Deus. Desta maneira, essas ações são reflexos do investimento feito por ele (homem) durante o período de sua vida – o período do plantio. Se as ações do homem convergem para sua própria satisfação, ele está semeando na carne, mas se as ações visam agradar a Deus, ele estaria semeando no Espírito. O fato de que há uma recompensa para ambas ações é justamente o que valida a comparação como um campo de colheita.

            Envolvi-me com a plantação de algumas sementes na congregação que estava servindo no bairro do Brito, em Campo Grande. Plantamos abóbora, milho, melancia, abobrinha, alface... Quando recebemos as sementes para o plantio ficamos impressionados em ver como a terra produziu exatamente aquilo o que estávamos plantando a seu tempo. Refletir sobre isso me fez pensar que existe uma lei natural, inviolável, estabelecida por Deus, de que é inevitável não colher aquilo o que se plantou. Considerar isso também nos leva ao entendimento deste texto sobre como a Bíblia está correta em declarar que por mais que não vejamos o fruto de nossas ações neste tempo, em dado momento será inevitável não colher os resultados da semente que está sendo semeada no campo em que está sendo semeado.

             É diante disso que a exortação de Paulo aponta para fazer o que é certo, independente do momento, independente de estar sendo visto ou não. Algumas traduções acrescentam ao versículo as palavras: Não erreis.Diante da realidade da semeadura não deveríamos esquecer que isso não se trata de uma opção ou uma receita para “se dar” bem na vida. Cristãos não devem fazer o que é correto apenas como aquilo o que foram chamados a fazer, mas também convictos de que há uma lei consequencial que em tempo trará seus frutos.Contudo, diferente daqueles que desejam fazer o bem a varejo de preferência quando estão sendo vistos, mas produzem o mal por atacado e às escondidas, a Bíblia afirma que há um justo juiz que contempla todas as coisas e que jamais existiria a possibilidade de estar enganado. Por este motivo, o texto enfatiza que de Deus não é possível zombar. O que significa que ainda que sejamos desonestos com todos, estejamos sempre procurando enganar os outros, viver uma vida dupla, Deus não será enganado por ninguém. O Criador de todas as coisas jamais será ludibriado por aquilo o que criou. Ele recompensará e punirá de acordo com sua inviolável justiça.

             As palavras que seguem o argumento do apóstolo servem como verdades inalteráveis mesmo para aqueles que questionam a validade disso. Pois, se existe algo que costumamos questionar, está no fato de que não entendemos nada sobre o tempo em que as coisas deveriam acontecer. Estamos sempre discordando de Deus a respeito da retribuição e da punição, sobretudo, do tempo em que isso deveria acontecer. Se acreditamos que temos feito bondade questionamos a Deus se não está na hora de nos recompensar; da mesma forma se vemos alguém praticando o que classificamos como injustiça, questionamos a Deus se não está na hora desta pessoa receber a devida punição. Bem como, quando somos nós os agentes do que é mal, nunca achamos que o tempo é oportuno para a devida disciplina.

             Contudo, o tempo da colheita é inevitável. E devemos ser gratos, porque ainda vivemos o tempo da semeadura. Por isso, a admoestação do apóstolo soa como se por mais que ainda não vislumbremos o fruto de nossas ações, tenhamos a certeza de que ele virá. Desta maneira, diz o apóstolo: “Não cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos...”

               Em última análise, esta afirmação tem a pessoa de Cristo Jesus como fundamento. Aquele que não cessou e não poupou esforços para fazer o que é correto, ainda quando tudo apontava para um sofrimento individualizado para benefício de muitos. Se Cristo é nosso exemplo, não devemos buscar fazer o bem apenas quando somos beneficiados, mas porque isso é certo. Assim como, devemos evitar o mal, não por medo das consequências, mas porque evitar o pecado é glorificar a santidade de Deus. Exatamente neste momento, temos a oportunidade de fazer o certo porque ainda estamos graciosamente vivendo o tempo de semear. Não jogue sua vida fora e perca a oportunidade de viver como Cristo nos comprou para viver. É certo que chegará o momento em que o tempo de semear passará e nos depararemos com o tempo da colheita. Em que terra temos semeado? Que frutos colheremos? Pensemos nisso! Que o Senhor tenha misericórdia de nós.


[1] A versão portuguesa (de Portugal) de João Ferreira de Almeida omite o verbo ra’ah, normalmente traduzido por contemplar. A New International Version (muito embora a NVI – versão em Português tenha traduzido o verbo corretamente) também omite o verbo. No texto original, o verbo estaria sendo empregado de maneira enfática.

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

Voltar