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Gn 2.15: “Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”

E
stamos nos aproximando de mais uma Semana Teológica (ocorrerá entre os dias 08 e 11/10). Nesse ano, estaremos refletindo sobre o tema: “Não jogue sua vida fora!” Nos sentimos provocados a pensar em como podemos estar desperdiçando nossas vidas, nas mais diversas áreas, vivendo de forma diferente daquela projetada por Deus. Pensando sobre isso e já aquecendo para a Semana Teológica 2018, esse texto tem o objetivo de refletir sobre uma área que costumamos separar da nossa vida espiritual. Nossa vocação!

     Talvez você se pergunte como a vocação pode ser encarada por alguns como separada da vida espiritual. Vocação não é o desempenho de algum dom espiritual dado por Deus? Não seriam exemplos de pessoas vocacionadas os pastores, os missionários e os evangelistas? Aqueles que servem na área da música na igreja não estão desempenhando sua vocação? Outros exemplos podem surgir nessa mesma linha de pensamento e, se você concorda com as perguntas acima, digo que é exatamente esse o problema. Quem disse que a nossa vocação está necessariamente ligada a ministérios eclesiásticos?

     No texto de Gn 2.15 que lemos acima, Moisés traz uma clara indicação de que Deus, antes do pecado, já havia ordenado que Adão deveria trabalhar cultivando e guardando o jardim do Éden. Portanto, o trabalho não é um problema ou uma maldição, como alguns costumam pensar, mas uma dádiva divina. A consequência do pecado é o peso do trabalho e não o trabalho em si. Dito isso, o que quero tratar aqui nesse texto é que todo trabalho, seja ele a pregação ou a agricultura; o cântico de louvores no culto ou a marcenaria; o evangelismo pessoal ou a arquitetura; devem ser feitos para a glória de Deus. Eles não se distinguem pela natureza do serviço, mas pelo objetivo.

     Explico melhor. Se você prega um sermão ou se dá aulas de matemática, em ambos os casos deve fazer para que o nome de Deus seja glorificado. Logo, se alguém prega sermões para seu envaidecimento e se, ao dar aulas de matemática, mostra a beleza da mente racional de Deus que rege o mundo de forma ordeira e organizada, qual dos dois serviços você acha que é aceito como adoração diante de Deus? Se alguém toca guitarra no culto para exibir sua técnica musical apurada e outra pessoa, ao construir uma casa, o faz com dedicação e cuidado para que Deus seja glorificado sobre ele, qual dos dois serviços você acha que sobe até o trono de Deus como louvor?

     William Tyndale, um reformador inglês, disse certa vez: “Há uma diferença entre lavar louças e pregar a Palavra, mas em importância para Deus, nenhuma.” O que ele estava refletindo é que devemos desempenhar nossa vocação para a glória de Deus, seja ela na área eclesiástica ou não. Nossa dificuldade de entender isso decorre da nossa herança medieval que fazia uma dicotomia (separação) entre o sagrado e o profano. Assim, falamos de “trabalho eclesiástico” e “trabalho secular”, de “vocação espiritual” e “vocação secular”, de “serviço para Deus” e “serviço para os homens”. Essa visão é ainda tão presente que alguns cristãos imaginam que vão passar a eternidade apenas “descansando”, sem trabalhar, nem produzir nada. Você aguentaria uma eternidade sem ser produtivo? Eu não!

     Esquecemo-nos que quem criou o trabalho, mesmo antes do pecado, foi o próprio Deus e o trabalho que ele incumbiu Adão não foi pregar, compor cânticos, construir instrumentos musicais ou um altar. Seu trabalho era agricultura! Aliás, o próprio Deus trabalhou na criação e continua trabalhando ativamente no mundo: “Meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também”, disse Jesus (Jo 5.17).

     Os apóstolos seguiram esse mesmo pensamento de Cristo. Paulo exorta: “Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre” (Ef 6.5-8) e Pedro acrescenta ainda mais: “Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus” (I Pe 2.18-19). O que está explícito é que todo tipo de serviço, mesmo o de um escravo, deve ser feito como ao Senhor, para a glória de Cristo.

     Esse não é o exemplo do próprio Jesus? O puritano Hugh Latimer afirmou o seguinte: “Isso é uma coisa maravilhosa: que o Salvador do mundo e o Rei acima de todos os reis não se envergonhou de trabalhar, sim, e de usar tão simples ocupação. [...] Aqui ele santificou todos os tipos de ocupação.

     Sendo assim, não deveríamos desperdiçar a nossa vida usando nossa vocação, seja ela qual for, de forma que não glorifique a Deus. Isso seria jogar a vida fora! Talvez você não tenha a vocação de ser pastor ou missionário ou um professor de EBD ou um músico ou cantor na igreja, mas deve aproveitar a vocação que Deus te deu, como engenheiro, dentista, faxineira, político, policial, taxista, etc, para a glória de Deus! Quando vivemos para nós mesmos, estamos jogando nossa vida fora e desperdiçando o dom que Deus nos deu.

     Citando outro puritano inglês, Williams Perkins mostrou como nossas vocações, todas elas, visam um propósito maior do que o sustento de nossas famílias: “Alguns homens talvez dirão: ‘Não devemos trabalhar em nossa vocação para sustentar nossa família?’ Eu respondo: isso tem de ser feito, mas esse não é o objetivo e o escopo da nossa vida. O verdadeiro objetivo da nossa vida é servir a Deus, em servir ao homem, e, como recompensa desse servir, Deus envia sua benção sobre os trabalhos dos homens permitindo que eles recebem por seus labores.” Assim, o cristão deve escolher “aquele emprego ou chamado no qual você possa ser mais útil a Deus. Não escolha aquele no qual possa ser mais rico ou ilustre no mundo, mas aquele no qual possa fazer maior bem e manter-se longe do pecado” (Richard Baxter).

     Não jogue sua vida fora! Desempenhe sua vocação para a glória de Deus! Lembremo-nos que fomos criados para trabalhar. Trabalhe! Desenvolva sua vocação! Seja na igreja ou na empresa, no campo missionário ou na fábrica, no evangelismo de rua ou no serviço da casa. Que Cristo seja visto e glorificado por aquilo que você faz. Lembre-se e demonstre que não é a sua capacidade, habilidade, destreza ou inteligência, mas o agir abençoador de Deus sobre você. Se fizermos isso, não estaremos jogando nossa vida fora e cumprindo a ordem divina: “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (I Co 10.31).

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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