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“E veio José a eles pela manhã, e olhou para eles, e viu que estavam perturbados”. Gn 40:6

F
ico observando as razões que levam uma pessoa a pensar no sentido de sua própria vida e chego à conclusão que dentre todos os momentos, os períodos que classificamos mais obscuros se mostram geralmente oportunos para essa indagação. Basta entendermos que perdemos o controle da situação, ou chegarmos a lugares distantes de onde desejaríamos estar e passamos a refletir sobre o que nos conduziu até ali, bem como por que nos encontramos nesse lugar. Paralelo a isso, uma enxurrada de pensamentos acerca do que deixamos a desejar e daquilo o que deveríamos ter feito para que o resultado pudesse ser diferente vêm a nossa mente. Não poucas vezes me senti assim, vivenciando um processo cíclico que me conduzia as mesmas perguntas: Por que cheguei até onde cheguei? Existe uma razão para eu estar onde estou? Coincidência ou não, esses momentos eram sempre períodos de crise intensa. Os desafios por vezes se mostram como os “locais” mais apropriados para o entendimento de nossa real necessidade e daquilo o que realmente somos convocados a ser.

 

            Como estamos refletindo sobre os ensinos proporcionados pela observação da história de José, registrada em Gênesis 37-50, falamos sobre o capítulo 39, em nosso último texto. Na conclusão, o capítulo exibe José sendo encaminhado injustamente para a prisão, por causa da calúnia levantada pela mulher de Potifar contra ele. Imagino que os questionamentos levantados no início desta pequena reflexão poderiam ser naturalmente realizados por ele. Em seu caso, a dúvida seria ainda mais intensificada pelo fato de que estava recebendo injustiça em troca de sua conduta sempre exemplar. José havia recebido o mal de pessoas que sempre ofertou o bem. A esta altura é possível que ele já estivesse acostumado, pois seus irmãos o haviam ensinado sobre como a vida pode parecer injusta algumas vezes. Porém, quem se acostumaria com isso? José estava novamente em declínio e agora em estado aparentemente pior que o anterior.

 

            Um preso normalmente não possuía privilégios, contudo, de alguma forma José é novamente destacado mesmo no cárcere. Ainda no capítulo 39:21-23, o jovem é colocado a encargo dos presos. Mais uma vez, a Escritura menciona que a razão pela qual a presença de José é sentida de maneira diferenciada se deve ao fato de o Senhor estar com ele. Parece-nos proveitoso notar que assim como seu pai e Potifar, o carcereiro também se interessa por José. Uma pergunta chave precisaria ser feita: O que há em comum diante daquilo o que essas pessoas entendem que José possui para lhes ofertar? Ele não apenas sabe cuidar das coisas como alguém organizado ou possui habilidades para tomar conta de pessoas como alguém que possui bom trâmite entre os outros. O que chama atenção é o fato de que todos estão interessados em sua prontidão para o serviço. É no mínimo interessante refletir sobre a conexão que existe entre a menção que a Escritura faz de que Deus está com José e sua identificação como alguém sempre útil para servir pessoas, sejam seus pais e seus irmãos, Potifar e sua casa, e agora o chefe do cárcere e seus presos. Parece que associado à razão da existência de José se encontra às marcas de sua missão, a realidade de um servo. Assim, seria muito difícil pensar corretamente o propósito de sua história sem entender que sua vida é regida pelo serviço às pessoas.

 

            Existem várias evidências de sua disponibilidade para o serviço, o que pode ser visto desde a solicitação de seu pai para que estivesse a encargo de seus irmãos, até sua disponibilidade para servir mesmo em um lugar que fosse menos favorecido, como onde estava agora. Entretanto, uma das características que mais me chama atenção é o fato de José ser alguém atento aos detalhes de seu serviço no cuidado com o outro. No relato deste capítulo isso pode ser notado. Ele consegue perceber a aflição dos mais novos integrantes do cárcere, pessoas que gozavam de certos privilégios, por serem chefes. O verso destacado no título chama a atenção, porque ocorre ênfase nessa conduta atenciosa de José. Enquanto algumas traduções deixam passar despercebida a existência de um verbo: “Quando José veio a eles pela manhã, viu que estavam perturbados[1], outras traduções aparecem da seguinte maneira: “E veio José a eles pela manhã, e olhou para eles, e viu que estavam perturbados”. A utilização do verbo ver, após o verbo olhar, traz uma conotação de alguém que se interessou, não apenas viu que estavam aflitos, mas percebeu que precisavam de ajuda. Talvez seja por isso que a NVI traduza “notou que estavam abatidos”. Aparentemente, ambos haviam cometido falta grave, o que levou Faraó a lançá-los no cárcere. Estando encarcerados, ambos sonharam algo que dizia respeito aos dias futuros deles, isso era o que os afligia. Foi assim que José se ofertou ao serviço de ouvir aqueles homens e como tendo recebido de Deus a verdade, comunicou-lhes a interpretação, ainda que para um deles ela fosse muito pesada.

 

            No desfecho da história vemos duas coisas marcantes. Primeiramente, o futuro teve seu desdobramento de acordo com a interpretação de José, com a morte do Chefe dos Padeiros e a soltura do Chefe dos Copeiros, algo que demonstra que realmente Deus estava com José. Segundo, é possível perceber o contraste entre o favor recebido pelo Copeiro-mor diante das palavras de José e fidedigna realização quando comparado à ingratidão por parte do copeiro. Ele desconsidera o pedido de José e se lembra dele apenas quando necessitou novamente de seus serviços, em um momento futuro que não temos como precisar. Talvez pensando em como isso pudesse lhe favorecer diante de Faraó - como aquele que apontou um caminho para alívio do que estava perturbando o rei. Permanece, todavia, o fato de que José é sempre lembrado por seu serviço e pela presença de Deus com ele.

 

            Considerando o desfecho da história de José quando chegaria até o lugar que Deus havia preparado para ele, vemos novamente o propósito estando ligado ao serviço que possibilitaria a preservação de toda sua casa. Toda proeminência que estava descrita em seu caminho foi para que os planos do Senhor se cumprissem para cuidado com a sua família e a manutenção da semente do Messias. A amplitude do serviço que prestaria não apenas beneficiaria seu pai, Potifar, o carcereiro, ou até mesmo a Faraó, mas toda humanidade.

 

Este tema me faz lembrar inevitavelmente de pessoas muito importantes em minha vida e que têm sido, ao longo de minha história, como instrumentos de Deus para sustentação de meus passos. Dentre estes, destaco um amigo que fala de como Deus utiliza a Igreja para tornar conhecidas as riquezas da glória de Deus. E o Senhor faz isso por intermédio do serviço que a Igreja presta. Ele declara ainda: “Uma das maiores manifestações de Deus na face da terra se chama Igreja”, enfatizando que é por meio dela que o Senhor tem, ao longo da história, atendido, cuidado e preservado as famílias, os filhos, os amigos, todos os seus servos debaixo de Seus preciosos caminhos.

 

Alguém que negligencia o serviço, o cuidado com o outro não poderia ser contado como Igreja de Cristo ou discípulo de Cristo. Especialmente, porque em nenhum outro lugar poderíamos encontrar tantas claras associações com esta história de José que nos registros da vida de nosso Senhor Jesus Cristo. Foi ele quem declarou que “...o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mc 10:45). O mestre está com isso dizendo que a razão de sua vinda a esse mundo não é outra senão servir. Deveríamos no mínimo considerar: Se somos discípulos de Cristo qual seria nossa razão de segui-lo senão em andar como Ele andou?

 

Da mesma forma, não poderíamos encontrar circunstâncias mais especiais para a percepção das marcas de um verdadeiro servo que nos momentos mais difíceis de sua vida. Olhando para José, é possível perceber que não importa onde estivesse, mesmo que estivesse em declínio de suas condições físicas, suas marcas eram cada vez mais consolidadas. Isso é amplamente intensificado quando olhamos para Cristo, que na cruz do calvário – por meio da sua morte – autenticou seu serviço, demonstrando a verdade de suas palavras e evidenciando que a verdadeira marca de um nascido para servir é a entrega total pelo outro.

 

Uma vida ensimesmada, voltada apenas para si e que desconsidera o próximo é um antagonismo aos propósitos de Deus para nós. Foi isso que aconteceu na queda quando Adão passou a valorizar mais a si mesmo que o cuidado que deveria exercer por sua mulher. Fomos colocados nesse mundo para o serviço ao outro, para o desfrute da comunhão com o próximo, por isso fomos feitos à imagem e semelhança do próprio Deus. E assim, como por meio do serviço de um homem encontramos a redenção de nossas mazelas, fomos gerados Nele – Cristo Jesus – para que nossa vida seja para sua glória, em amor ao próximo. Que olhemos menos para nós e mais para o outro e sejamos esclarecidos que mesmo em nossos momentos mais difíceis, o serviço ao outro é a forma como o Senhor vai nos revitalizando, nos trazendo ao verdadeiro propósito por meio do qual podemos refletir Sua glória, vivendo para Ele.

 

Que o Senhor nos ajude!

 



[1] A versão portuguesa (de Portugal) de João Ferreira de Almeida omite o verbo ra’ah, normalmente traduzido por contemplar. A New International Version (muito embora a NVI – versão em Português tenha traduzido o verbo corretamente) também omite o verbo. No texto original, o verbo estaria sendo empregado de maneira enfática.

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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