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 Jo 12.10-11: “Mas os principais sacerdotes resolveram matar também Lázaro; porque muitos dos judeus, por causa dele, voltavam crendo em Jesus.”

O
s cristãos sempre foram perseguidos. Desde o início do cristianismo, sempre houve, em algum lugar, algum cristão sofrendo por causa da sua fé. Assim foi no século I dC, com a perseguição empreendida pelos judeus e romanos. Seguiu-se nos séculos seguintes, com muitos sendo levados à morte por não negarem sua fé. Mesmo debaixo da proteção de Constantino e, depois, sob a bandeira da Igreja Católica Romana, cristãos verdadeiros têm sido oprimidos, perseguidos, presos e mortos no mundo.

Essa realidade parece tão estranha a nós, pela liberdade que gozamos em nosso país, que nem nos damos conta de que somente no Séc. XX morreram mais cristãos martirizados do que nos 19 séculos anteriores. Eles sofreram e morreram simplesmente porque não aceitaram negar sua fé. No momento em que escrevo esse texto, na liberdade do meu lar, sem o risco de ter a igreja invadida por homens armados ou ter minha vida e família ameaçados de morte, cerca de 215 milhões de cristãos estão passando por algum tipo de perseguição no mundo! Isso mesmo! Você não leu errado! 215 milhões! Considerando que a população mundial é de aproximadamente 7,6 bilhões de pessoas, significa que a cada 100 pessoas no mundo, 3 são cristãos perseguidos. Estima-se que cerca de 90.000 cristãos morram por ano em função dessa perseguição.

Mas, como já vimos, esse fenômeno não é novo. Já acontecia na época de Jesus. O texto de Jo 12.10-11 mostra como Lázaro, após ter sido ressuscitado por Jesus, passa a sofrer ameaça de morte por causa da sua fé. Imagine que ele havia acabado de ser trazido de volta à vida e, agora, corria o risco de morrer novamente. O texto deixa claro que essa ameaça não era fruto de uma vida ilegal ou de desafetos humanos. Ele não estava ameaçado por ser um mau pagador ou alguém envolvido com assuntos impróprios. Lázaro estava sendo ameaçado de morte porque muitos, ao ouvirem seu testemunho, voltavam crendo em Jesus. Os religiosos da época, que já estavam tentando matar a Jesus (Jo 11.53: “Desde aquele dia, resolveram matá-lo”), querem calar o testemunho de Lázaro. Sua vida incomodava. Seu testemunho incomodava. Seu respirar incomodava.

Essa situação não deveria nos assustar. O próprio Jesus sofreu e alertou seus discípulos que o mundo os odiaria (Jo 15.18-20). A garantia do mestre é que “se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”! O apóstolo Paulo recebe a mesma garantia da parte do Espírito Santo: “o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações” (At 20.23). Pedro também traz a mesma ideia para seus leitores: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo” (I Pe 4.12).

O que deveríamos estranhar é essa aparente calmaria. Parece que ninguém mais se incomoda com nossas palavras, com nosso testemunho, com nossa vida. Lázaro foi perseguido porque sua vida revelava Cristo e as trevas ficam incomodadas com a luz. Paulo, Pedro e todos os demais apóstolos foram perseguidos porque mostravam a Cristo e o Império das trevas, perdendo espaço para a Verdade do evangelho, reagiu contra-atacando!

Não quero advogar aqui que devemos desejar a perseguição e o martírio. Esse foi o erro de muitos cristãos ao longo dos séculos II e III dC. Nossos irmãos entendiam que eram discípulos de Cristo e assim como Cristo sofreu, foi humilhado, perseguido, preso e morto, o natural é que todo cristão sofra, seja humilhado, perseguido, preso e morto. Ser discípulo é andar nas pegadas do Mestre. Portanto, eles não esperavam que acontecesse com eles algo diferente do que havia acontecido com Jesus. Entretanto, apesar de ser uma visão correta, esse entendimento transformou-se em desejo pelo martírio, ao ponto de alguns darem-se voluntariamente para morrer por sua fé. Esse desejo precisou ser corrigido e eles passaram a afirmar que o martírio era uma dádiva divina e que nem todos tinham recebido esse dom.

O que estou querendo mostrar com isso é que o fato de termos paz e liberdade em nosso país é fruto da Graça e da Misericórdia de Deus. É um benefício que não merecíamos!

Observe que estou indo na contramão de muitas pregações que afirmam que o cristão não pode sofrer, que ele é filho de Deus e, portanto, não passará por lutas e perseguições. Pregadores enchem o peito dos seus ouvintes de orgulho e de falsa segurança ao afirmar que somos “cabeça e não cauda”, distorcendo o texto bíblico em prol de uma mensagem triunfalista vazia e irracional. Não! Essa não e a mensagem do evangelho. A mensagem de Cristo é “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (Lc 9.23-24)! A certeza que temos é que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (II Tm 3.12).

É interessante observar que Pedro diz que Jesus nos deixou um exemplo no sofrimento: “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (I Pe 2.20-24).

O que deveríamos nos perguntar não é se haverá perseguições, mas se temos vivido uma vida que desperta a reação contrária do império das trevas. A pergunta é se temos mostrado Cristo de forma tão vívida e clara que as trevas se incomodam com a luz e reagem contra-atacando. Será que temos feito o Reino de Deus expandir seu território pela nossa pregação ao ponto de fazer com que o Império das trevas tente frear nossa voz e testemunho?

Como disse certo pregador do passado, o problema dos pastores do seu tempo era que ninguém mais queria matá-los. Será que o diagnóstico hoje é diferente? Não podemos ser agressivos ou intolerantes com as pessoas, mas algo em nós deve incomodar as trevas. A mensagem precisa incomodar. A verdade precisa ser vista. O proceder correto precisa expor o procedimento errado. Não podemos calar nossa voz profética em nossa geração por medo das represálias ou perseguições. Temos a plena confiança de que já vencemos pelo sacrifício de Jesus, mas esse viver precisa trazer à tona se, de fato, amamos mais a Ele do que a nossa própria vida. Como os santos relatados em Apocalipse, confiamos que: “o venceram [o diabo] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11).

A pergunta não é se seremos perseguidos, mas como iremos reagir quando a perseguição bater às nossas portas. A pergunta é se temos amado mais a Cristo do que a nossa liberdade e até a nossa própria vida. A pergunta é se valorizamos mais a Verdade ou as amizades. A pergunta é onde está o nosso tesouro: nos céus ou nessa terra?

Que Deus nos dê coragem! 

 

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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