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E
xiste uma visão comum nas igrejas que valida a ideia de que há um cristianismo sem Bíblia. Essa percepção não é explícita, mas tacitamente aceita. Não está presente nos ensinos doutrinários ou nos sermões comunicados dos púlpitos, mas veladamente aceita por muitos que se dizem cristãos reformados. Algumas vezes se discute de modo mais agudo acerca de preceitos valiosos de nossa fé, enquanto se tem ao mesmo tempo desprezo cotidiano pela Escritura.

Quando olho para a Reforma ocorrida no tempo do Rei Josias, ou promovida por Esdras e Neemias, quando olho para o ministério de Jesus e para os Reformadores do século XVI, ou ainda para o movimento puritano e o avivamento vivenciado por John Wesley ou Jonathan Edwards e também para a conversão e para obra de Agostino de Hipona sempre vejo a presença contínua da Escritura. Mas hoje se acredita de verdade que se pode viver um cristianismo sem Bíblia.

Acredita-se que, a leitura pessoal da Bíblia, como momento de intimidade com Deus e de aprendizado contínuo, pode ser trocado pela realização de alguma coisa dentro da igreja. O viver o Evangelho passou a ser centrado na realização de tarefas e cumprimentos de agendas, tudo dentro de um arcabouço religioso vazio e sem vida. Entende-se que fazer parte de uma comunidade e nela ter uma participação num serviço é viver o cristianismo, mesmo que abdicando de uma vida de aproximação da Palavra.

Tudo isso é vazio porque não há avivamento sem Bíblia e oração. Desta forma, vemos os pastores tendo que lidar com crises contínuas de crentes que nunca amadurecem, nunca abandonam pecados antigos, nunca frutificam como poderiam e deveriam... porque se satisfazem com pequenas porções que lhe são gotejadas nos momentos públicos de culto. O que deveria florescer, por vezes, é árido e sem cor. As vidas salvas permanecem raquíticas. E a visão de Reino e do papel da igreja ficam deficitárias porque a fonte de vida, que transforma a mente e coração, está distante e sem o Evangelho não se vê, de verdade, o poder de Deus.

Em Esdras 7.10 vemos o relato de um homem que entendeu o princípio básico da vida cristã, que é de fazer discípulos. A missão dada a igreja em Mateus 28, chamada de “A Grande Comissão” sempre foi a tarefa do povo de Deus, também percebida no Antigo Testamento. Mas como poderemos fazer discípulos se não vivemos aos pés de Cristo, ouvindo de suas palavras descritas em toda a Bíblia? Como poderemos estar cheios do Espírito Santo se desprezamos o Pão da Vida que nos salva da condenação eterna e cotidianamente de nós mesmos? Deveríamos ser como Esdras que dispôs o coração a aprender da Palavra, para viver a Palavra e para ensinar a Palavra. Mas negligenciamos a primeira fase – que é a de aprender a Palavra – e não compreendemos porque não há santificação e não cumprimos nossa missão como poderíamos e deveríamos...e então vivemos dias como que barcos desorientados em meio as águas turbulentas, que vez por outra, e somente em alguns poucos momentos, nos sentimos em portos seguros.

E assim, entendemos o desprezo de muitos pela Escola Bíblica dominical, pelos Estudos Bíblicos e pelas Reuniões de Oração, por exemplo, de fato são emblemas de corações que já desprezaram a voz de Deus em seu cotidiano, embora sejam capazes de negar que rejeitam ao próprio Deus, como se fosse possível desprezar sua Palavra sem negá-lo.

Devemos clamar para que os crentes percebam que precisamos desesperadamente da Bíblia, como quem precisa de algo fundamental para a vida e sua direção. Perceba que nem me refiro aos que estão envoltos em heresias e doutrinas falsas e não-bíblicas e distantes do Evangelho. Esses também precisam, é óbvio. Mas escrevo acerca daqueles que acham que estão em comunidades bíblicas porque são orientados biblicamente e entendem que estão vivendo o cristianismo da Escritura – mesmo que longe de uma prática pessoal de devoção, de dependência da Palavra Santa. Esses estão se enganando e fragilizados em sua fé, embora muitas vezes nem percebam, enquanto veem apenas reflexo do mundo que os engole e tomam seu coração... porque estão fracos. Estão precisando viver a insubstituível prática pessoal de devoção ao Senhor.

“Crentes sem Bíblia” parece uma nova forma de se viver o cristianismo. Bom, pensando bem... essa já foi uma prática da igreja! Na Idade Média isso se tornou comum e a tradição foi se consolidando como uma orientação paralela e crescente na igreja. Corremos o risco, portanto, quinhentos anos depois da Reforma Protestante de vermos se consolidar sorrateiramente algo parecido... um cristianismo divorciado da Bíblia. Agora, no entanto, ocorrendo em meio a profusão de exemplares disponíveis da Palavra e mesmo em igrejas em que a Bíblia está no centro litúrgico de suas existência... pelo simples fato que individualmente muitos preferem viver sem Bíblia.

Oro por uma mudança que ocorra pela Palavra e de que dela não nos afastemos. Certa vez, Jesus percebeu que muitos desprezavam sua Palavra...

À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; (João 6.66-68).

Oro para que compreendamos que longe da Palavra da vida eterna sucumbiremos. E assim, voltemos às Escrituras. Oro para que a Bíblia esteja no centro de nossos cultos públicos, mas acima de tudo... no centro de nossas vidas!

 

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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