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At 15.28: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...”

A
tos 15 mostra um momento muito importante da história da Igreja Primitiva e, diria sem hesitação, da História da Igreja em todos os tempos. Os apóstolos haviam recebido a ordem de Jesus de pregarem em todas as nações (Mt 28.19; Mc 16.15; At 1.8). Após um período inicial de hesitação, onde permaneceram em Jerusalém, há uma perseguição que impulsionou a igreja para além dos limites da cidade (At 8.4). A história narrada por Lucas avança mostrando o progresso do cristianismo entre os samaritanos, chegando até aos gentios. Em Atos 9, Lucas registra a conversão de Paulo e, a partir do capítulo 13, ele focaliza no trabalho paulino como um missionário entre as nações gentílicas. A mensagem do evangelho estava chegando a lugares que ainda não haviam recebido o cristianismo. Povos estavam sendo alcançados. Incrédulos convertidos. Milagres confirmavam o poder do Espírito Santo na vida dos missionários. A bandeira do evangelho estava sendo fincada em territórios longínquos. A luz de Cristo estava se propagando nas trevas da incredulidade e da superstição idólatra.

Pode parecer que nada iria desvirtuar o caminho da ação evangelística da igreja, que avançava sendo guiada, fortalecida e animada pelo Espírito Santo. Entretanto, é justamente nesse contexto de euforia pela expansão do evangelho que surgem problemas. Alguns judeus convertidos começaram a ensinar que era necessário que os gentios convertidos seguissem toda a lei de Moisés, especialmente na questão da circuncisão. É o que vemos em At 15.1,5: “Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos. [...] Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos fariseus que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés”.

Essa questão se tornou tão importante que obrigou Paulo e Barnabé a interromperem sua viagem missionária e irem até Jerusalém para que uma decisão fosse tomada em conjunto com os apóstolos e presbíteros. Houve, então, o que chamamos de Concílio de Jerusalém. Uma reunião específica e formal para deliberar sobre a questão. O relato de Lucas nos mostra que, depois de intensas discussões e do relato da experiência de Pedro em Jope e também de Paulo e Barnabé no campo missionário, eles se voltaram para as Escrituras para chegarem a uma conclusão de como agir:

Depois que eles terminaram, falou Tiago, dizendo: Irmãos, atentai nas minhas palavras: expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome. Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito: Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei. Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos. (At 15.13-18)  

O que fica notório no texto é que eles não decidiram com base no que acharam e nem tão pouco nas experiências relatadas. Não foi uma decisão baseada no pensamento dos presentes ou formada a partir de evidências da prática. Eles observaram tudo isso à luz do que diziam as Escrituras, especificamente o livro do profeta Amós, que foi citado por Tiago. A deliberação foi, então, que eles não deveriam impor carga excessiva sobre os gentios, liberando-os do cumprimento dos aspectos ritualísticos da lei mosaica.

Veja que não é possível minimizar a importância do que foi tratado nessa reunião. Eles vinham de uma cultura onde a lei mosaica tinha preponderância na vida dos judeus. Agora, sendo o evangelho levado aos gentios, a tendência natural seria obriga-los a se tornarem “judeus” para poderem ser cristãos. Os que advogavam a necessidade da circuncisão só estavam repetindo o padrão de proselitismo judaico que vinham exercendo por séculos entre os gentios. Uma decisão errada poderia ter levado a Igreja em uma direção diferente da proposta por Cristo.

É justamente aqui que vemos o agir soberano de Deus guiando esses homens. Deus não os tinha deixado só para tomar essa decisão. Ele estava zelando por sua Igreja e conduzindo os apóstolos e presbíteros na direção planejada desde o princípio. E isso fica evidente na afirmação que encabeça a carta enviada aos irmãos gentios com as deliberações do Concílio. Eles escrevem que as decisões tomadas e enviadas a eles era fruto do que tinha sido bom para o Espírito Santo! Veja, novamente, At 15.28a: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”. Note que, em primeiro lugar, aquela decisão “pareceu bem” ao Espírito Santo e, como consequência disso, pareceu bem para eles. Não foi uma decisão dos homens e, como consequência, algo bom aos olhos do Espírito. Foi justamente o contrário! Porque era uma decisão boa para o Espírito, também o era para eles!

O que é relatado em At 15 não é diferente do que já vinha acontecendo na igreja. Note, por exemplo, como o relato do envio de Paulo e Barnabé com missionários segue o mesmo padrão: “E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (At 13.2-4). Foi o Espirito quem designou Barnabé e Paulo e foi o Espírito quem os enviou. Mesmo uma ação que já havia sido ordenada por Jesus (pregar às nações), tem, da parte da igreja, uma busca específica, em oração, para que a decisão não fosse deles, mas do Espírito Santo.

Essa afirmação nos deve fazer pensar em como tomamos decisões em nossas igrejas, ministérios, famílias e em todas as áreas das nossas vidas. Fico muito preocupado com pessoas que agem impulsivamente, tomam suas decisões, decidem para onde prosseguir e, depois de tudo planejado e iniciado, clamam a Deus para que abençoe os seus projetos. Você consegue perceber a que inversão isso nos leva? Essas pessoas decidem o que lhes “parece bem” e depois esperam que o Espírito Santo concorde com elas. Não foi assim que os apóstolos fizeram...

Devemos refletir sobre isso em todas as decisões que tomamos diariamente, desde as mais simples, até as mais importantes e complexas. Com que roupa devo sair de casa? Que tipo de trabalho devo me engajar? Com quem devo me relacionar? Como devo cultuar? Como devo administrar meu dinheiro e meu tempo? Devo aceitar essa proposta de emprego ou não? Como devo ensinar e disciplinar meus filhos? Como devo tratar e amar minha esposa? Que tipo de comida e bebida deve fazer parte da minha alimentação diária? Como deve ser o meu linguajar? Que livro devo ler ou que filme devo assistir? Como devo utilizar os dons que tenho recebido no ministério cristão? Essa lista poderia se estender quase que indefinidamente... Paulo resume tudo isso em I Co 10.31: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus”!

A chave para essa compreensão é que tudo (tudo mesmo!) o que fizermos deve ser guiado pelo Espírito Santo, para glória de Cristo. Parte de uma compreensão de que a nossa vida não nos pertence. Somos apenas mordomos, cuidando daquilo que foi comprado pelo sangue de Cristo e que, portanto, pertence a Ele. É exatamente o que Paulo pensava: “nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.7-8); “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28a) e Gl 2.20: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Se a nossa vida não nos pertence, não é justo usá-la de forma a agradar o seu verdadeiro dono?

Talvez você pergunte de que maneira prática podemos ser, assim, guiados pelo Espírito Santo. A resposta vem do texto que lemos em At 15. Eles chegaram a conclusão do que “pareceu bem ao Espírito” depois de investigarem o que as Escrituras tinham a dizer sobre o tema a ser decidido. Em outras palavras, precisamos ter nossa mente e coração cheios da Palavra de Deus para conseguirmos refletir sobre as decisões que precisamos tomar e sermos instruídos por ela em como devemos agir. O Espírito Santo habita em nós e atua para esclarecer nossa mente turbada, mas precisamos, de forma rotineira e habitual, alimentar-nos com a Palavra de Deus para que ela nos guie através da iluminação do Espírito. Se entendermos o que a Bíblia diz sobre decência no vestir, saberemos se nossas roupas estão adequadas. Se soubermos o que diz sobre glutonaria e embriaguez, saberemos o que devemos comer ou beber. Se entendermos os princípios que regem o culto público e o ministério cristão, saberemos como adorar, orar ou evangelizar. Se compreendermos o que a Bíblia ensina sobre amor, saberemos com nos relacionar com o próximo, com os irmãos e com nossos cônjuges e filhos. Se percebermos que as Escrituras nos ensinam que somos embaixadores de Cristo, poderemos decidir se esse ou aquele emprego nos conduz na direção da santidade ou nos afasta da comunhão com Cristo. Se a Bíblia estiver arraigada em nossas mentes e corações, teremos uma cosmovisão cristã do mundo e nossas decisões estarão alinhadas com a vontade do Espírito Santo.

Como disse Richard Baxter século atrás, aplicando esse pensamento à escolha de uma profissão: “escolha aquele emprego ou chamado no qual você possa ser mais útil a Deus. Não escolha aquele no qual possa ser mais rico ou ilustre no mundo, mais aquele no qual possa fazer maior bem e manter-se longe do pecado”.

E aí? Suas decisões têm sido boas pra quem? Para você ou para o Espírito Santo?

Que o Senhor nos ajude a viver de forma com que possamos responder essas perguntas como os apóstolos no passado: “minhas decisões tem parecido boas ao Espírito Santo e, portanto, também a mim”. Amém.

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.


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