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G
ostaria de iniciar uma série de reflexões sobre uma seção que gosto muito na Escritura. Trata-se da parte que conta a história de José. Teremos aproximadamente cinco reflexões que nos nortearão diante desta maravilhosa demonstração da ação soberana do Deus que rege a História. Começando com o capítulo 37 de Gênesis, desejamos refletir até o momento em que se finda o conteúdo relativo a isso e nos desafiaremos a apreender os ensinamentos que migram destes capítulos. De antemão, antecipo que nosso grande objetivo é identificar José como a própria Bíblia o apresenta, ou seja, não apenas como um exemplo a ser seguido, mas como um dos grandes emblemas da graça do Senhor no Antigo Testamento. Por meio dele, poderemos perceber o padrão pelo qual Deus revela o Evangelho, estampado em cada página desta história. Então, sigamos juntos.

            De maneira providencial, estive recentemente ouvindo meu amigo e irmão Ilton Sampaio de Araújo, ministrando sobre o capítulo que antecede ao que se inicia a história de José (36), e ele notou algo interessantíssimo nesta descrição genealógica da descendência de Esaú. Tentando utilizar de suas palavras proferidas publicamente, eu a descreveria como uma “geração de conquistadores a partir de seus próprios braços”. A exposição da genealogia não é nada modesta e conta com uma larga referência a príncipes e reis, enquanto isso se contrasta com uma descrição breve a respeito dos filhos de Jacó, que não se estende muito, mencionada no final capítulo anterior (35). Apesar de ser esta uma característica da Escritura enfatizar que a história dos filhos de Jacó ainda não havia se encerrado, é possível notar também como isso trabalha por enfatizar o drama da família escolhida por Deus.

Para mim, o encerramento do capítulo 37 é um dos mais tristes no relato da história da família dos Patriarcas. Acredito que não seria um exagero colocá-lo como um dos um dos mais tristes da Escritura Sagrada. Contudo, com um desfecho memorável podemos perceber dois aspectos importantes que contribuem para a forma como somos convocados a examinar a Escritura. Pois, ao passo que o texto contribui para o conhecimento do estado incondicionalmente depravado de todos os homens, um olhar atencioso promoverá noção da fragrância da graça por todo enredo e desdobramento desta história.

Adentrando a história, lemos logo nos primeiros capítulos que Jacó estava habitando nas terras das peregrinações de seu pai, Canaã. Sem se delongar muito, já é possível notar quem será o personagem principal da história, pois depois de descrever que “Estas são as gerações de Jacó” o que equivaleria a dizer: “Esta é a história da família de Jacó”, vemos o trecho mencionando José de maneira proeminente. Este filho era alguém da confiança de seu pai, mesmo com seus dezessete anos. Ele apascentava as ovelhas de seu pai, assim como seus irmãos. Porém, vira e mexe más notícias eram trazidas a respeito de seus irmãos por parte de José para seu pai. Não temos a noção do que isso significaria, mas podemos conjeturar que José era como um fiel descritor de como havia sido o dia de trabalho para o seu pai, uma espécie de olheiro, um representante dos olhos de seu pai sobre o seu gado. E se nesse ponto já poderíamos identificar um contraste entre as características de seus irmãos e as de José, a Escritura ainda acrescenta que Jacó amava José de maneira que seus irmãos podiam perceber que isso era superior ao amor que ele sentia por eles. Desta forma, José era amado por seu pai, mas odiado por seus irmãos. É importante destacar duas ultimas características que parecem implícitas, mas que estão intimamente ligadas às características de José quando a narrativa dá voz à sua fala.

José é acometido com sonhos e relata a seus irmãos. Nestes sonhos, ele contempla que seria maior que seus irmãos e seus pais, e assim ele deseja contar a eles as novas. Primeiramente, seria comum chegar à conclusão de que José é alguém que usa mal a sua fala. Afinal de contas, quem diria para irmãos que não costumavam nutrir sentimentos amistosos, que recebeu um sonho onde todos os membros da família estariam futuramente debaixo de sua autoridade. Na verdade, a família já conhecia que Deus poderia se comunicar por este meio e aquilo ali poderia ser uma verdade, por este motivo seus irmãos o odiavam ainda mais, enquanto Jacó guardava isso em seu coração. Mas é preciso pensar de outra forma para entender a fala de José. Diante do que a história revela sobre ele, deve-se considerar sua simplicidade e sinceridade, ao mesmo tempo, sua firmeza e comprometimento no trato com a verdade. O filho de Jacó não estava inventando nada, apenas reproduzindo o que havia contemplado da parte de Deus.

O jovem se apresenta como alguém que comunica as verdades de Deus sem titubear, independente do que isso poderia significar a sua própria vida. Ele lhes fala a verdade ainda que isso produza resultado desastroso. É comum que as pessoas sempre meçam suas palavras considerando o resultado que poderá ser produzido no outro.  Parece que José não está preocupado com o fim e sim com o fundamento do que está falando. Ele não é pragmático falando coisas que possam trazer bons resultados, falando aquilo o que seus irmãos desejariam ouvir para ter deles sua amizade. Ele fala a verdade!

Esse tema é tão sério que nos faz refletir como tem sido impressionante o número de pessoas que têm negligenciado a verdade bíblica em busca de resultados que elevem o número de pessoas dentro de suas igrejas. Metodologias e rituais, “espiritualismos” desprovidos de fundamento teológico, ameaças de perda dos “tesouros adquiridos”... Um verdadeiro pragmatismo religioso a fim de proporcionar crescimento pela força. Temo que estejamos vivendo dias onde tenhamos muitas igrejas cristãs sem o Cristo, lugares onde não há espaço para pregar o Evangelho de Cristo, mas um desdobramento de ideias que se distanciam da verdade. Líderes que estão mais preocupados com “como” agradar seus membros do que manterem-se fiéis à Escritura. Uma lástima!

É impossível pensar em José como alguém pragmático e isso se deve justamente ao seu comprometimento com a verdade. A certeza de que está comunicando aquilo o que vinha de Deus não traria boa aceitação entre seus irmãos, mas o que dizer se esta era a verdade? José sonha ainda a segunda vez e novamente revela a toda sua família que Deus havia apontado um futuro onde ele seria proeminente. É nesse ponto que a história fala que seus irmãos foram a um local distante. Talvez seja possível perceber o mesmo desenho da história de Caim e Abel, a diferença está na comunicação. Se Caim faz um convite a Abel para irem a um local onde Caim assassina seu irmão, os irmãos de José não precisam fazer isso, porque já sabem que logo seu pai o mandaria atrás deles. Como se desviassem para um local mais distante, o diálogo logo aponta para aquilo o que já estaria em voga em suas mentes: “Vinde e mantemos este sonhador!”. Seus irmãos não desejavam apenas dar cabo a vida de seu irmão, mas eles desejam ardentemente que aquilo o que saiu de sua boca jamais viesse a se tornar realidade. Eles odeiam José e a possibilidade de que Deus tenha planos de lhe colocar acima deles, independente do que isso poderia significar para eles.

Se aprendemos com José por meio de seu compromisso com a verdade, a pedagogia se intensifica ainda mais quando do momento de sua humilhação. O texto menciona que desde que José chegou ao local que seus irmãos estavam, ele passou a ser humilhado, tendo sua túnica arrancada e sendo lançado em uma cisterna vazia e como sabemos, posteriormente foi vendido como escravo. Mas, ao contrário daquele que aponta a verdade para seus irmãos, agora José está calado. A Escritura não menciona nenhuma palavra por parte de José e se tem uma coisa que podemos aprender com as Sagradas Letras é que quando ela silencia um personagem do qual costumam migrar as verdades que Deus deseja que conhecemos, isso também possui propósito. Não declarar nada neste ponto nos faz refletir sobre aquele que ao ser vilipendiado por seus irmãos, não registra nenhuma defesa em seu favor – sendo alvo de grande injustiça e de puro orgulho. Seus irmãos se mostram tão familiarizados à mentira que cobrem uma mentira com outra, proporcionando tristeza profunda a seu pai. Enquanto de José Jacó sempre ouvia a verdade, dos irmãos de José a mentira chegava às ultimas proporções. Por causa da ausência de José, os irmãos de José sofreriam grandemente – especialmente ao se deparar com o sofrimento inconsolável de seu pai. Haviam silenciado a voz que alegrava ao seu pai e não havia o que fazer.

Como disse, o término deste primeiro capítulo é bastante triste. Porém, assim como toda Bíblia, ele apresenta de maneira fiel o Evangelho de Cristo Jesus. Vemos a história de José como uma sombra que aponta para a pessoa de Jesus, que sendo amado por Seu Pai com amor incomparável, foi odiado por seus irmãos. E reproduzindo as palavras da verdade, não apenas porque as detinha, mas porque é a própria verdade (Jo 14:6), foi acusado por seus conterrâneos de blasfemo, belzebu e outras injúrias. Da mesma forma, foi vendido por 30 moedas de prata, por um de seus discípulos – que com um beijo o traiu. Ele sofreu toda sorte de humilhação, mas diferente de José, provou a morte de cruz, a morte como um miserável pecador. A semelhança de José, tudo isso Jesus passou sem abrir sua boca (Mt 26:63; 27:12; Mc 14:61). Assim como profetizou Isaías: “Ele foi maltratado, humilhado, torturado; contudo não abriu a sua boca” (Is 53:7a).

Não há como entender as riquezas e o poder do nosso Senhor, aquele que conhece o fim desde o começo. Pois, foi por meio da humilhação de José, por meio de seu sofrimento que ele estava sendo conduzido para o lugar de onde poderia servir como instrumento para preservação de toda sua família. Seus irmãos se utilizaram do ódio e orgulho para se livrar de José, mas Deus estava trabalhando para preservação da família por meio da qual Ele tornaria conhecidas as riquezas da sua glória! Aleluia! Glórias a Deus, pois por meio da morte de Cristo Jesus e ressurreição, fomos libertos para sempre do poder do pecado que nós mesmos produzimos.

Continuamos posteriormente!

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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