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V
ocê ama as pessoas que estão ao seu redor? Você ama seu pai, sua mãe, sua filha ou seu filho? Você ama sua esposa ou seu marido? Você ama? Creio que diante dessas perguntas, a resposta seja devolvida imediatamente com sonoro SIM, na maioria das vezes. Mas, será que, de verdade, você ama essa pessoa, ou pessoas, que você pensou ou usa essa pessoa como meio de se satisfazer? Parece dura essa indagação aos seus ouvidos? Mas espere um pouco. Vamos refletir mais sobre este tema.

Leia o texto que segue: Labão lhe respondeu: Ache eu mercê diante de ti; fica comigo. Tenho experimentado que o SENHOR me abençoou por amor de ti. E disse ainda: Fixa o teu salário, que te pagarei. (Gênesis 30.27-28). O texto fala de duas pessoas que tem laços familiares. Jacó, o genro, está se despedindo de Labão, seu sogro, depois de vinte anos de serviço. Para que Jacó não vá, Labão lhe propõe a permanência e para isso lhe garante a disponibilidade de um acordo que poderia ser atraente.

Labão era pai de Raquel e Lia e, consequentemente, sogro de Jacó. Eles são bons exemplos de duas pessoas egoístas. Embora tenham laços de parentesco, cada um pensa somente em si mesmo. Desde sua relação na casa de seu pai, Jacó é um usurpador que não se constrange em se aproveitar da fragilidade de seu irmão para, dessa situação, tirar proveito pessoal, como podemos verificar.

Tinha Jacó feito um cozinhado, quando, esmorecido, veio do campo Esaú e lhe disse: Peço-te que me deixes comer um pouco desse cozinhado vermelho, pois estou esmorecido. Daí chamar-se Edom. Disse Jacó: Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura. Ele respondeu: Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura? Então, disse Jacó: Jura-me primeiro. Ele jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó. (Gênesis 25.29-33).

Labão não era diferente, sua proposta de que seu genro fique é apenas uma ação  movida pelo fato de que desejava a permanência do trabalhador que, abençoado pelo Deus de Abraão, trazia à sua casa uma produtividade que o enriquecia. Este mesmo Labão já havia mostrado sua conduta autocentrada quando enganara o mesmo Jacó, quando do enlace matrimonial de Jacó com Raquel, sua filha. Prometera que daria sua querida filha em casamento a Jacó se este lhe servisse por sete anos. Ao final dos sete anos – creio que todos os leitores conheçam a história – o que Jacó recebeu foi uma ação de trapaça. Agora, este mesmo Labão lhe faz uma proposta como se fosse alguém merecedor de todo credito, dizendo: Fixa o teu salário, que te pagarei. Um mentiroso trapaceiro fazendo mais uma promessa mal intencionada.

Na altura em que estamos nesta leitura talvez você esteja se indagando: mas como estes personagens tão repulsivos podem servir de parâmetros em nossa análise? É notório que eles são mentirosos, egoístas, trapaceiros, usurpadores, exemplos de pessoas que tem todas as condições de usar as pessoas ao invés de ama-las. Isso é visível em suas personalidades. E então você conclua: deveríamos pegar outros exemplos para nos servir de referência, porque estes são excelentes exemplos de pessoas autocentradas, do egoísmo e do desejo que mira fazer uso das relações para atender seus interesses. Pois bem, não por acaso destacamos estes dois. Eles são exemplos terríveis, emblemas mal acabados do que deveria ser o homem, feito a imagem e a semelhança de Deus. E não me queira mal, por tudo isso é que eles são ótimos representantes do que somos. Pessoas egoístas que usam as pessoas com o objetivo de terem seus interesses atendidos.

Seja franco e medite o quanto tendemos a “amar” aos que podem nos ofertar algum serviço, alguma ajuda, algum benefício, algum prazer e que promovem conforto na busca pessoal por saciar nossos interesses. Na verdade, amamos – de propósito uso aqui equivocadamente o conceito de amar, com o objetivo de estabelecer a distinção entre o conceito correto e o incorreto – aqueles que nos trazem ofertas. No fundo nos sentimos como deuses e, como seres que devem ser adorados, devotaremos mais afetos aos que atendem nossas expectativas pessoais, ouvem nossas demandas. Esses são alvos de nosso amor. Somos assim seres amorosos, muito amorosos. Prontos a amar a muitos. Na verdade, estamos dispostos a amar a todos que nos forem úteis, que nos servirem. Somos como Labão e como Jacó.

E se você ainda tem dúvida acerca dessa nossa conclusão sobre nosso conceito, ou melhor, nossa prática do que dizemos ser “amor”, então, atente para Abraão com Sara; olhe para Adão e Eva; observe Caim; note o comportamento do apóstolo Paulo, na luta entre o que queria  e deveria fazer; verifique a conduta de Tiago, Pedro e João com Jesus no Getsêmani...olhe para a sua própria vida – com toda sinceridade possível – e pense se não se relaciona com as pessoas com o objetivo de usá-las, muito mais do que amá-las de fato.

Essa visão utilitarista não é nova. O próprio Jacó propôs isso a Deus, quando o próprio Deus já havia feito promessas a ele, garantindo que o abençoaria. Neste encontro Jacó viu a possibilidade de exercer adoração e amor a Deus se este lhe atendesse suas vontades e anseios. Jacó estava pronto para “amar” a Deus, desde que este o reconhecesse como o que deveria ser servido. Ali a proposta era de que Jeová reconhecesse Jacó como seu Senhor.

Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo. (Gênesis 28.20-22).

Então, eu te proponho a mudar seu olhar. Te convido a entender o significado real do amor e como devemos amar, olhando para Cristo e sua cruz. Assim, olhando para o Cristo, que possamos compreender o significado verdadeiro do amor e, como consequência, notar como devemos amar as pessoas que estão a nossa volta. Olhar para seu pai, sua mãe, sua noiva, seu marido, sua filha ou vizinho a partir da manifestação mais sublime e real do amor. Ele é o parâmetro e não Jacó, Labão, eu e você. Nós não sabemos amar...só sabemos usar as pessoas. Mais do que isso, nós, naturalmente, não queremos amar as pessoas, somente usá-las. Mas olhemos para Cristo.

Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. (Filipenses 2.1-8).

Portanto, espero que na altura de sua leitura você esteja constrangido. E que, movido pela poder da Palavra de Deus e pela ação do Espírito Santo, você possa estar refletindo como tem se relacionado com as pessoas ao seu redor. E então, compreender que os seus relacionamentos serão sempre reflexo de sua relação com Deus Pai e que isso sempre será mediado pela pessoa de Cristo Jesus. E, desse modo, entender como Jesus está relacionado com o significado mais verdadeiro do amor. Algo muito distante de nossa corriqueira falácia.

Assim sendo, nossa oração é para que este singelo artigo possa ter sido usado por Deus para que toda forma manipuladora impregnada em sua mente e coração e para que todo desejo egoísta de usar as pessoas possa ser substituído pelo verdadeiro amor, pois sem ele – como está  descrito em I Coríntios 13 – tudo que você possa fazer será vão e, como consequência, sua vida será vazia. Este, portanto, é o paradoxo proposto pelo cristianismo, de que se deve perder para que se possa ganhar. Concluo orando para que nós tenhamos o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus!

 

 

 

 

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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