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“E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa, enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado. E por isso nem ainda me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará”. Lucas 7:6,7

Q
uem gostaria de receber status de homem digno? Aliás o que seria necessário para obter tal reconhecimento? Não encontro uma pessoa sequer que esteja isenta do desejo de ser reconhecido como alguém digno diante dos outros. A sociedade se esmera em uma busca de autopromoção, mas parece longe de saber descrever o que, de fato, seria a verdadeira dignidade. Deparei-me com um texto em um de meus momentos devocionais esta semana, onde percebi o contraste de um homem que era classificado como homem digno diante da sociedade, mas que autodeclarou sua indignidade ao saber da possibilidade de se deparar com Cristo. Segundo a Escritura, ao contato com Jesus Cristo, conhecemos a verdadeira dignidade, ao mesmo tempo que aprendemos a respeito de nossa real condição.

Jesus estava se dirigindo a Cafarnaum, voltando de ensinar intensamente, quando tomou conhecimento que o servo do centurião da região estava enfermo. A descrição das atitudes desse centurião nos leva a refletir que ele era alguém bastante estimado em seus dias. O fato de um cargo como este ser normalmente fornecido a um romano proeminente produz revelação sobre a forma como este homem deveria ser visto ante os próprios cidadãos romanos. Sua reputação de homem honrado, porém, não se restringia apenas à autoridade recebida por seu cargo. Uma conduta honesta e justa para com aqueles que estavam sob seus cuidados, o mantinha como alguém benquisto até mesmo pelos judeus. Estes mencionam a Jesus que ele era alguém digno de receber a visita do Mestre. É interessante pensar que enquanto romanos eram reconhecidos pela busca de estabelecer distinção entre nobres e plebeus, este homem demonstra simplicidade e humildade, por meio da menção de sua preocupação com seu servo. Isso nos apresenta alguém que não se destacava das pessoas ou da possibilidade de uma boa e verdadeira amizade com indivíduos classificados socialmente diferentes dele, o que deve ser percebido até mesmo quando invés de servos, o texto diz que ele envia anciãos e amigos para falar com Jesus, rogando em prol de seu criado.

Fico refletindo sobre como é difícil encontrar pessoas que sejam semelhantes a este homem, se importando com os outros e se prontificando a servir invés de serem servidas. Por incrível que pareça, muitas igrejas se tornaram ambiente reprodutor dessa dificuldade. Em muitos lugares é possível ver um sistema que dá maior ênfase a hierarquias, fornecendo a certas pessoas cargos e junto a isso o desejo de serem reconhecidas pela posição eclesiástica. Parece absurdo, mas ainda hoje é possível ver pessoas que se comportam como se fossem donos dos outros, donos de igrejas, servindo como uma espécie de guia espiritual. A autoridade adquirida neste caso é como um vento e não está fundamentada em algo sólido, mas em jogos e barganha. Em nada se assemelham a este centurião, que demonstra apreço e cuidado por alguém que aparentemente não tem nada a lhe oferecer. Note que as características que parecem elevar esse centurião ao status de homem digno diante de seus contemporâneos têm relação direta com seu serviço.

Todavia, nenhuma das características positivas deste centurião foi por ele considerada preciosa quando se deparou com a possibilidade de estar diante de Jesus. Por isso vemos atitude no mínimo inusitada mencionada no texto. Ao saber que Jesus estava na região, o centurião certamente considerando a necessidade de seu servo, não pensou duas vezes em solicitar que rogassem sua vinda até o local. Não sabemos ao certo, mas é provável que esse homem tenha sido impactado pelo que já havia ouvido a respeito de Jesus em momentos anteriores, ao tomar conhecimento de seus feitos e de sua obra. A atitude de solicitar que o mestre fosse até sua casa demonstra o reconhecimento da verdadeira autoridade e da única possibilidade de seu servo ser salvo.

Mas, o desdobramento do texto é revelador e mostra a progressão do entendimento desse homem não apenas acerca de quem era Jesus, mas também a respeito de quem ele era diante daquele que poderia resgatar seu servo da condição que se encontrava. Parece que na medida em que vai sendo esclarecido que Jesus é o Senhor; que é a verdadeira autoridade; e que estava se direcionando para sua casa, isso o faz se apressar no reconhecimento de quem ele mesmo era: um indigno de estar diante do verdadeiro digno. Suas próprias palavras mencionam: “Não sou digno...”. Notamos aqui, um verdadeiro contraste: a dignidade referida pelo povo diante da exata percepção da indignidade constatada aos olhos do próprio centurião. Isso nos leva a concluir que não existe dignidade humana que sequer possa se colocar ante a verdadeira dignidade do Rei dos reis.

É possível que alguém procure mitigar a percepção desse homem, remetendo-a apenas a um tratamento respeitoso a Jesus. Contudo, o próprio Cristo exalta-lhe a fé, declarando que mesmo diante dos judeus, não havia encontrado algo semelhante a isso. O que é paradoxal é que Jesus Cristo com isso eleva esse homem a uma condição sem precedentes até aquele momento. O reconhecimento da potencialidade de Cristo e que não há limites para aquilo o que o Senhor desejasse fazer, ainda que por meio de uma palavra, provém da certeza de que Jesus é Deus. É claramente nisso que se fundamenta a declaração de que não era digno nem de chegar à presença de Cristo ou mesmo de recebê-lo em sua casa. Esta atitude é reconhecida por Jesus como fundamento da fé daquele homem – o que redundou também no recebimento do favor.

Impossível não perceber a mensagem do Evangelho estampada nesse relato. Homens, por mais alto que possam chegar em suas aspirações nessa terra, não passam de indignos diante daquele sem o qual nada teria sido feito senão fosse por sua vontade. Mas, a graça de Deus se mostra esplendorosa quando, por meio da fé, desperta os indignos para contemplarem a verdadeira dignidade do Filho. A fé consiste exatamente nisso: A percepção de quem verdadeiramente somos e quem Cristo verdadeiramente é.

É preciso lembrar que Cristo não despreza o fato de que esse homem apresentava um aspecto moral elevado e desejável diante dos homens. Alguém poderia até dizer que aparentemente por esse motivo é que Jesus estava se dirigindo até a casa do centurião. No entanto, além do texto não deixar claro o motivo pelo qual Jesus se direcionava até o local, percebemos a razão pela qual o texto foi julgado digno de ser mencionado justamente pelo fato de Cristo não ter chegado até o local. Mais do que apresentar um exemplo moral a ser seguido, o texto aponta que o aspecto moral deve ser acompanhado do reconhecimento de que toda e qualquer suficiência se encontra em Cristo e não em nós. Sem ele, nossa dignidade não vale de nada.

Devemos concluir, portanto, que quanto mais exaltamos nossa dignidade nessa terra mais se torna claro que nossos olhares não estão voltados para o Cristo. Quanto mais buscamos ou declaramos nossos valores perante os homens mais distantes estamos da apresentação da verdadeira mensagem do Evangelho: Que o Digno Cordeiro alcançou miseráveis, indignos pecadores. Isso deveria nos conscientizar que quanto mais queremos que as pessoas conheçam a respeito de nós, perdemos oportunidade de levá-las ao único conhecimento que pode salvá-las. As pessoas precisam ouvir menos de nós e mais de Cristo. Apenas assim viveremos de forma digna. Nossa dignidade consiste em reconhecermo-nos indignos perante o Senhor que é digno de honras e de glórias para sempre, Amém!

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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