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E pondo-se o sol, um profundo sono caiu sobre Abrão; e eis que grande espanto e grande escuridão caiu sobre ele. (Gn 15:12)

 

S
ou um defensor nato da inspiração verbal e plenária, termos que vindicam que todo e qualquer trecho dos autógrafos registrados na Escritura Sagrada fazem parte daquilo o que Deus desejou que fosse conhecido a seu respeito. Mas, confesso que encontro profunda limitação para entender alguns trechos que parecem de certa forma mais obscuros. É possível que alguém declare que eles sejam apenas complementares ou suprimento para coerência da narrativa. Confesso que já olhei o versículo acima desta maneira. Perguntas do tipo: Por que Abraão dorme diante do Senhor? Como assim, caiu num sono profundo? E se estava dormindo, o que significa grande espanto e grande escuridão?

            O conteúdo, embora apresente mensagem singular, não poderia ser compreendido se não soubéssemos o que está acontecendo aqui. Abraão (ainda que seja chamado assim apenas a partir do capítulo 17, nos referiremos a ele desta maneira) depois de fazer guerra contra aqueles que tinham levado seu sobrinho, Ló, passa por um momento de bênção. Ele é abençoado por um personagem chamado Melquisedeque, o que diante da estrutura de toda história de Abraão, colabora para evidenciar a continuidade da promessa do Deus que havia escolhido o favorecer, sem mesmo que Abraão tivesse optado por alguma coisa. Isso está evidente desde o episódio da separação das terras entre seu sobrinho e ele, quando Ló escolheu aquilo o que aos olhos parecia melhor, mas Deus havia se direcionado para o cuidado com Abraão. Estava com ele para o favorecer. Os detalhes desse favorecimento englobam as minúcias deste pequeno trecho, da mesma forma como em tudo podemos enxergar o padrão da Escritura de nos fazer ver o fim desde o começo, o Evangelho prometido de antemão.

            No versículo primeiro deste capítulo (Gn 15:1), lemos que este trecho se trata de uma visão onde Deus aparece a Abraão. Suas declarações iniciais ao patriarca são: “Não temas, Abraão. Eu sou teu escudo e teu galardão”. Dentre as palavras que poderiam ser mencionadas e trabalhadas, acredito que é preciso entender que a menção a palavra escudo aqui tem relação direta com aquilo o que está por acontecer no texto[1], porque logo depois de um diálogo sobre o esclarecimento a respeito de sua descendência, o Senhor entra em processo pactual com Abraão. No Antigo Oriente, o contrato era representado pela criação de um caminho onde animais eram partidos ao meio. Suas extremidades eram colocadas de um lado e de outro, formando o caminho pelo qual deveriam passar os que estavam sendo inseridos nos termos do contrato. A ideia era: aconteça o que foi feito aos animais àquele que violar o pacto. Miles Van Pelt declara que nem sempre em acordos como esse as duas partes passavam juntas diante do caminho para validação do pacto. Normalmente, a parte mais fraca era quem passava diante do caminho. Contudo, não é isso que vemos acontecendo nessa história. E aí está materializado o exemplo de como Abraão deveria enxergar que o Senhor é efetivamente seu escudo.

            Na menção que aponta que o Senhor fez Abraão cair em um sono profundo, o vocábulo tardemah nos chama atenção por ser a mesma palavra utilizada para se referir ao sono profundo a que Adão foi submetido, quando seria retirada uma de suas costelas para a criação de Eva. Inevitável ver aqui a ação protetora e a providência de Deus diante daquilo o que Abraão não poderia suportar. O sono providencial e as densas trevas apontam para o momento mais importante e mais terrível onde a inviolabilidade do pacto é apresentada. Com o sono ocasionado a Abraão, Deus passa no meio do caminho, como uma tocha flamejante, um fogo consumidor, impedindo que Abraão – como parte mais fraca – fosse obrigado a passar no meio do caminho.

            Duas coisas estão claras aqui. A primeira delas é que há uma distinção entre Deus e Abraão nesse texto. Eles não são pares, não são iguais. A supremacia de Deus excede a tudo o que é mencionado a respeito de Abraão. Essa informação é suficiente para indicar a manutenção de nossa adoração e devoção ao Senhor. Outra coisa é que apesar de não serem iguais, o fato de Deus passar no meio do caminho reitera suas palavras sobre o fato de ser como escudo protetor de Abraão assumindo para si todo o risco da violação do pacto pela parte mais fraca.

            Esse fato se cumpre de maneira definitiva quando o Senhor Jesus se coloca como o receptor da maldição por causa da violação do pacto por parte dos descendentes de Abraão. O próprio Deus Filho se apresenta como réu e se faz maldito, conforme Gálatas 3:13 menciona: “Foi Cristo quem nos redimiu da maldição da Lei quando, a si próprio se tornou maldição em nosso lugar, pois como está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro””. O Senhor não apenas tomou lugar naquilo o que os homens não teriam capacidade de suportar, como trilhou o caminho de sofrimento e morte para que por Ele recebessem as benesses do pacto.

            Concluo refletindo sobre dois pontos. Primeiramente, parece que somos impedidos de ver o que Deus está fazendo porque não temos a capacidade para compreender ou mesmo resistir o que ele determinou. Somos direcionados ao entendimento de que existe um padrão pelo qual Deus impede dos homens a percepção daquilo o que não estão habilitados tanto a enxergar quanto suportar. Isso serve como fundamento para que entendam que seu refúgio, o verdadeiro porto seguro não depende de suas obras, conquistas, ou mesmo recursos intelectuais, mas depende exclusivamente da obra do Senhor. Refletindo desta maneira acerca do sono providencial fornecido a Abraão, seria possível pensar sobre como Deus o impediu de se precipitar por um caminho que não seria capaz de suportar. Nenhum homem jamais será capaz de pelos seus próprios méritos cumprir as exigências pactuais de Deus. Mas, não apenas isso, o próprio Senhor está atento e convicto disso. Ao contrário do que pensavam muitos judeus, a Lei trabalha para evidenciar que o padrão de Deus é muito alto e jamais será alcançado pelos homens. A graça consiste no fato de que Deus evidencia que não é algo desconhecido de sua parte a incapacidade dos homens cumprirem Suas exigências. Por isso, ao passo que Sua exigência não é mitigada e ninguém jamais poderia se aproximar diante dele senão por meio de Seu pacto, Ele mesmo providenciou a forma que esse pacto seria irrevogável pela oferta de Seu Filho.

            Por último, devemos lembrar que Abraão estava bem aflito com o fato de que nada em sua história parecia apontar para a possibilidade de que as palavras do Senhor pudessem se tornar verdade. Ele havia recebido a promessa de que sua descendência seria numerosa, mas a realidade apontava ao seu lado uma mulher estéril e uma velhice já bem encaminhada nas suas costas. Se considerarmos que entre o intervalo do chamamento do Senhor e a efetivação daquilo o que prometeu se passaram 25 anos, poderíamos naturalmente declarar, que Deus parece ter tocado diretamente nas esperanças lógicas de Abraão. Um homem de 75 anos precisaria chegar aos 100 para contemplar o agir de Deus – o tempo preciso para ter certeza de que apenas Deus poderia tornar válida a promessa. Quando nossa capacidade se esgota nossa visão é ajustada para a percepção da potencialidade da ação extraordinária do Deus soberano.

             Ainda é importante notar que embora Abraão pareça um tanto quanto ansioso em suas indagações a Deus, ao ouvir a Palavra do Senhor, o texto diz que Ele creu (Gn 15:6) e isso lhe foi imputado por justiça. Esse padrão revela o meio pelo qual Deus continua a fazer com que homens desesperançados tenham restabelecida sua esperança. Ao ouvir a Palavra de Deus, são conduzidos pelo próprio Deus à fé naquele que é suficiente para reunir em si todas as coisas. As densas trevas e o momento de temor, por causa do cair do sol seriam eliminados e dariam lugar à esperança pela presença daquele que é a verdadeira Luz do Mundo, aquele que nos livrou daquilo o que não poderíamos suportar. Mas, não apenas isso. Se levarmos as ultimas consequências a referência do Senhor como escudo e o desdobramento de suas palavras na história da redenção, lembraremos que o escudo tinha a função de receber as pancadas que eram destinadas aos homens. Se ao final da batalha o escudo estivesse totalmente afetado significaria que aquele que está por trás do escudo estaria salvo.

            Cristo é aquele que recebeu em si tudo aquilo o que não poderíamos suportar para que todos aqueles que se refugiassem Nele pudessem ser salvos para sempre! Aleluia!

 



[1] Professor Miles Van Pelt, enfatiza com isso aponta para o fato de que Deus estaria se prontificando a proteger Abraão no que estava por ocorrer.

 

 

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jonatas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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