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“Vós maridos, amai a vossas mulheres como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela...” (Ef 5:25)

S
empre que temos um tempinho, eu e minha esposa gostamos de curtir um bom filme. A constatação de se o filme é bom ou não normalmente vem ao final. Mesmo assim, entre eu e minha esposa isso é bem relativo. Temos gosto quase que antagônicos pra filmes. Enquanto ela prefere comédias românticas, eu sou fã de ficção científica e dramas. O último filme que vimos escolhi pensando em uma seleção que parecesse mais com o que ela gosta. Então, pegamos um que estava categorizado como comédia romântica. Seu título: Perfeita pra você!

            O filme foi escrito pela dramaturga Bess Wohl, norte-americana, formada em Harvard e Yale School of Drama. Se tivesse visto isso antes, já poderia deduzir que embora a classificação apontasse para um lado, havia bastante probabilidade de termos um drama no cenário. Foi exatamente isso o que aconteceu. Uma história bem triste, mas que nos aproxima muito mais do mundo real que aqueles finais quase sempre felizes das comédias românticas. Não sou contra os finais felizes, apenas não gosto de que esteja na cara o que irá acontecer no filme.

            Ao contrário de Fernanda, gostei muito. Não apenas por toda realidade que consta no filme, mas graças a Brian Godawa[1] aproveito sempre para analisar criticamente cada filme que vejo. Infelizmente, terei que dar o famoso spoiler de algumas partes importantes do filme que está disponível no Netflix para que possamos refletir um pouco sobre sua história.

            A obra cinematográfica conta a história de Abbie (Gugu Mbatha-Raw), uma jovem que está muito feliz e cheia de planos em seu relacionamento com Sam (Michiel Huisman). No entanto, quando pensa que algumas reações em seu corpo se referiam à chegada de mais um integrante para a família, descobriu que se tratavam de nódulos cancerígenos múltiplos e gigantescos que resultariam em uma abrupta interrupção de todos seus sonhos longos com Sam. Para quem vê o filme em seus momentos iniciais, sabe que ela está caminhando para a morte, porque as primeiras cenas mostram Sam em frente a uma lápide em um cemitério, com o nome de Abbie. Assim não fico com a consciência pesada por te contar isso. A história retorna e a curiosidade fica por conta de como chegariam até ali.

            Abbie, assim como a maioria dos seres humanos, é descrita como uma pessoa extremamente autocentrada. Isso se torna bem claro na forma em que ela lida com Sam. Ela e Sam eram amigos desde a infância e o filme nos leva a entender que ela foi quem tomou as diretrizes para que as coisas avançassem entre eles. Ao tomar conhecimento que sua vida está por terminar bem antes da meia idade, Abbie se mostra preocupada com a incapacidade de Sam escolher bem sua próxima mulher – uma vez que ela havia tomado o passo em direção a ele. Ao descobrir que Abbie estava fazendo entrevistas com outras mulheres para que tomassem seu lugar após sua morte, Sam fica bem irritado com a atitude de Abbie de querer decidir sobre seu futuro, embora aparentemente compreenda seu desespero em se refugiar nisso invés de encarar seus tenebrosos últimos dias de vida.

            Apesar do romantismo que normalmente atrai os telespectadores, assim como toda tristeza gerada pelo envolvimento emocional com o papel da protagonista, as partes mais importantes do filme parecem ser reproduzidas na fala de um amigo que Abbie adquiriu em um encontro que fazia regularmente com um grupo que denominavam “the last group you ever wanted to be a member of” (o último grupo do qual você gostaria de participar). Myron, representado por Christopher Walken, é um senhor já de idade avançada que possui, assim como Abbie, seus dias contados. Algumas vezes ele a deixa em silêncio com suas palavras e questionamento sobre suas atitudes. Sugiro que se você deseja entender o filme não apenas ria da forma cômica que este ator se mostra, mas atente à suas falas.

            Logo no primeiro diálogo entre os dois, Myron acorda Abbie para o fato de que logo que ela morrer a vida de Sam não vai parar e ele vai procurar um novo relacionamento. Ele diz isso parecendo confrontá-la com a dura realidade da iminência da morte e sua impotência diante do quadro. Depois deste alerta que a busca de Abbie se torna efetiva, duvidando da capacidade do rapaz encontrar alguém perfeita como ela era para ele. Em outro momento, ao revelar a Myron que buscava uma mulher ideal para seu amado, o amigo explica a ela que esta atitude não se tratava de um bem que ela desejava fazer a Sam, mas estava vivendo a síndrome de antecipação de sofrimento – informando-a que isso não muda nada – sendo apenas uma tentativa de controlar o que está fora de controle.

            Apesar de sempre tentar acordar Abbie para a realidade de como tudo o que estava fazendo não traria qualquer melhora para ela, Myron a acompanha em muitos outros momentos e parece que sua relação com Abbie visa contrastar a vida egoísta de Abbie por meio da reflexão sobre o valor da amizade verdadeira e desinteressada. Essa constatação pode ser verificada no último momento em que se encontram. Ao convidá-la para observar Falcões com seu binóculo, o filme chega ao seu estágio final no ensino que deseja transmitir. Myron está em fase muito avançada em sua doença, sente tantas dores que já não consegue mais ocultar. No entanto, Abbie sequer percebe que ele está piorando. Ela apenas fala de si mesmo e de seu relacionamento. Depois de perceber que Sam não era tão perfeito como ela pensava, por uma série de coisas que ele havia feito em revolta a forma como ela estava se comportando, Abbie questiona ao amigo se Sam era realmente sua alma gêmea. Myron declara para ela que a maior briga da vida dele com sua esposa havia sido por causa de um sofá, que não queria que sua esposa colocasse na sala. Eles haviam ficado dois anos sem se falar. A forma de ele lidar com isso foi ceder e perdoar, indicando o que ela deveria fazer para ficar bem com seu amado em seus últimos dias de vida. Ao ouvir isso, Abbie questiona se Myron estava realmente se comportando como seu amigo e o lembrou que ela somente continuou retornando ao grupo por causa dele, dando a entender que deveria estar grato a ela por isso – falando coisas que a agradassem. A resposta de Myron aponta para o golpe final na visão ensimesmada de Abbie: “Você não deveria ter se tornado amigo de alguém que está morrendo!”. Em outras palavras, ele estaria dizendo que diante da forma que ela olhava para os amigos, isso não seria útil a ela.

            Após a morte do amigo de maneira repentina, sem que estivesse por perto, Abbie vai até o local que o corpo estava sendo velado e ainda encontra espaço para reclamar o fato de que ele não havia falado com ela que estava com dores. As palavras da esposa de Myron são contundentes: “Não se trata de você, Abbie!”. Após esse momento, ela procura Sam e parece rogar perdão por coisas que ela não conseguiu verbalizar. Antes de morrer, Abbie escreve uma carta que é lida após sua morte. Em suas últimas palavras, finalmente ressoam o desconhecido obrigado.

            Omiti de propósito algumas coisas importantes que espero que façam você desejar ver o filme. Mas, inevitavelmente, fui levado à reflexão de dois aspectos. O primeiro, fala que devemos ser gratos a Deus por nossas vidas. Mesmo os cristãos, acabam esquecendo que suas vidas deveriam ser dotadas de gratidão. Os filhos de Israel eram convidados a se aproximar do Senhor tendo isso em mente “Entrai por suas portas com ações de graças...” (Sl 100:4). Da mesma forma, o apóstolo Paulo convoca os crentes em Tessalônica que deem graças em tudo, porque esta é a vontade de Deus (I Ts 5:18). Já disse algumas vezes que a ingratidão é o mal do século e isso revela nossa incapacidade de perceber que o Senhor tem sido gracioso e mui generoso, apesar de muitas vezes sequer atentarmos para isso. Recebemos sustento, amigos, saúde, cuidado familiar e quando alguma dessas coisas faltam valorizamos mais o que não temos. Se algum crente se comporta desta maneira devo acrescentar que ele estaria desconsiderando a maior dádiva de todas, a que foi concedida na cruz de Cristo: a vida eterna.

            Vejo pessoas hoje buscando coisas quando na verdade não são as coisas que as manterão nos trilhos. Percebo com isso como a Bíblia é oportuna em apresentar por todo enredo bíblico, a potencialidade dos relacionamentos. Deveríamos ser gratos a Deus por isso. Mas, há ainda algo em especial e que está no fato de que o relacionamento entre homem e mulher possui um significado muito maior. Estes relacionamentos prefiguram um relacionamento em especial.  Isso me leva ao segundo ponto, o fato de que nosso casamento aponta para algo sublime, para algo perfeito.

            O desejo constante da raça humana de se unir em matrimônio encontra amparo no fato de que há um casamento perfeito do qual todos os casamentos aqui nesta terra prefiguram. Não é à toa que a Bíblia se esmera por dedicar páginas ao ensino sobre como se comportar com nossos cônjuges e em uma dessas orientações Paulo nos informa que a relação marido e mulher devem se dar à semelhança da relação entre Cristo e a Igreja. Deus estabeleceu o casamento para que vivamos esse grande mistério de maneira antecipada, por meio de nossa relação com nosso cônjuge. Ao olharmos para o fato de que a Bíblia apresenta o Filho de Deus como o Noivo, que se unirá de maneira definitiva com sua noiva, a Igreja de Cristo, nas Bodas do Cordeiro, Ele está nos convocando a entender a dimensão do que significam os propósitos de Deus para um relacionamento estabelecido entre um homem e uma mulher que se amam. Porém, diferente das imperfeições claras identificadas tanto em Abbie quanto em Sam, e ainda o fato de que aquela que parecia ser a parceira ideal para ele, ter sido acometida por um câncer que inviabilizou a continuidade da relação, esse casamento entre Cristo e a Igreja nunca dará errado e nunca terá fim. Esse sim é o casamento perfeito e é perfeito, porque um dos cônjuges é tão perfeito que sua perfeição é capaz de aperfeiçoar sua noiva.

            Jesus, o Noivo perfeito exerceu perfeitamente seu papel de proteger a sua noiva, porque ele “...amou a sua Igreja e sacrificou-se por ela, a fim de santificá-la, tendo-a purificado com o lavar da água por meio da Palavra, e para apresentá-la a si mesmo como Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outra imperfeição, mas santa e inculpável”. (Ef 5:25-27) Nossos relacionamentos não são perfeitos, porque somos imperfeitos. Todavia, como Igreja de Cristo, temos a plena certeza de que Jesus Cristo é perfeito para nos purificar. Ele deu de si mesmo para que fôssemos aperfeiçoados e para que assim vivamos a vida perfeita, uma vida para glória dEle. Aleluia!! Ele é perfeito e apesar de nossas imperfeições, nos amou e nos limpou para pertencermos a Ele!



[1] Em seu livro “Cinema e Fé Cristã” – da editora Ultimato.

 

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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