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"Sentaram-se diante dele, o primogênito segundo a sua primogenitura, e o menor segundo a sua menoridade; do que os homens se maravilhavam entre si". (Gn 43:33)

E
stava refletindo sobre como a Bíblia relaciona os momentos onde há intimidade e comunhão com o assentar à mesa. É possível que os mais jovens não estejam tão familiarizados com momentos como esse. Nossas casas estão cada vez menores e nossa disposição em passarmos juntos alguns instantes à mesa nem sempre é prioridade. Ainda me lembro desses momentos que tínhamos na casa de minha avó, quando reuníamos quase toda família de meus avós paternos aos domingos para comermos a carne assada com batata da Dona "Tinguinha". Vovó retornava da EBD procurando nos servir, já tendo adiantado a comida no dia anterior. Sentados à mesa e auxiliados pela sombra de um imenso "pé de Jamelão", só saíamos dali para o delicioso e sempre fresco descanso na rede. Esse era, sem dúvidas, um momento muito especial e dificilmente será esquecido de minha memória.

Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo confirmam que o assentar à mesa era algo que designava profunda comunhão. O Evangelho de Lucas, por exemplo, reserva diversos momentos em sua narrativa para falar de banquetes que aconteciam (Lc 5,29-30; 7,36-50; 9,10-17; 14,1). Estes registros mostram que Jesus também participava dessas refeições em conjunto. O mais interessante é que na maioria das vezes ele estava com pessoas consideradas indignas, desprezíveis e pecadoras.

Quando reflito sobre isso, percebo como as páginas da Escritura Sagrada estão embebidas da mensagem do Evangelho e transmitem a todo tempo, mesmo em momentos como esse (onde pessoas se assentam à mesa), a relevância da consideração de sua mensagem para entendimento do ensino do texto.

Há uma história registrada no Antigo Testamento que considero muito especial para ensinar sobre isso. Ela fala de um período onde os filhos de Jacó estavam desejosos de terem algo à mesa para que pudessem comer, mas não podiam porque o mantimento que deveria ser posto ali estava em falta. Pai de muitos filhos, Jacó não sabia mais o que fazer e solicitou a seus filhos que fossem buscar comida no Egito, que era o único lugar onde havia fartura de alimento. Jacó não sabia que naquele lugar havia comida apenas porque José, a quem seus filhos haviam vendido, tinha sido instrumento de Deus para prosperidade que o Egito estava vivendo.

Ao chegarem no local pela primeira vez, depois de terem sido reconhecidos por José, ele os acusou de espiões - que intentavam fazer mal a Faraó. A estratégia visava conhecer um pouco mais do estado de sua família. Ao tomar conhecimento do bem estar de seu pai e de seu irmão Benjamim, decidiu reter a um dos irmãos (Simeão) e estabelecer que só voltaria a fornecer mantimento à família, e liberar seu irmão, caso retornassem com o irmão mais novo. Esse pedido tocava diretamente em um ponto muito sensível para a família, pois lembrava a todos uma tristeza muito profunda que havia se instaurada a partir da ausência de José.

O capítulo 42 de Gênesis termina demonstrando a relutância de Jacó em atender ao pedido do governador (seu filho José) de retornarem com Benjamim, fazendo com que deixassem Simeão por algum tempo naquele local. Apenas quando o mantimento acaba, Jacó se vê sem alternativas e permite, com profundo pesar, que seus filhos retornem. Preocupados com um acontecimento inusitado - o fato de terem recebido de volta o dinheiro em suas sacolas na primeira vez - os filhos de Jacó jamais imaginariam o que estava por acontecer a eles, em terras egípcias.

José, ao ver seus irmãos dá ordens de que eles fossem dirigidos à sua residência particular. Pensando que se tratava da cobrança do dinheiro indevido, os irmãos de José se apressaram em explicar ao mordomo o que havia acontecido e que estavam dispostos a restituir o dinheiro aparentemente recebido por engano. Mas, ao ouvir as palavras de paz do mordomo e receber novamente Simeão, perceberam que haviam sido presenteados com grande favor. As surpresas não pararam por aí, pois depois de terem lavados os seus pés - algo nobre realizado a pessoas que eram bem vindas em uma residência - ainda foram convocados a um célebre momento de banquete. As porções foram distribuídas a cada um como se alguém ali soubesse suas idades e por isso ficaram maravilhados - muito embora o irmão mais novo tenha recebido porção cinco vezes maior.

A última frase do último verso do capítulo 43 (verso 34) declara que a comunhão foi tanta que eles beberam e se regalaram com ele. A palavra shakar indica um momento de prazer e alegria profunda. Porém, até aqui eles sequer faziam ideia de quem os estava fazendo tão bem. José se revela apenas no capítulo 45, mas não há como não refletir sobre como essa alegria sentida pelos irmãos seria acrescida de outros sentimentos se realmente soubessem que ali estava alguém que haviam ofendido brutalmente.

Quando me perguntava sobre os muitos momentos em que José já poderia ter se identificado, esse era um em que eu pensaria ser apropriado. Talvez, esse seria oportuno para causar uma indigestão e fazer aqueles maus irmãos perceberem que ele não era do mesmo nível que eles. Que estava pagando mal com bem. Mas, a sabedoria de José me deixa pasmo. Ele permitiu e gozou de preciosos minutos com aqueles que nem sabiam o quão indignos eram diante daquele que lhes ofertava o banquete. Que misericórdia! Que graça!

Este quadro parece refletir perfeitamente aqueles publicanos e pecadores que assentados com Cristo Jesus, se maravilhavam e o ouviam alegremente - simplesmente por estarem diante de alguém tão importante, tão proeminente. É possível que muitos deles nem soubessem que a vinda dele a esse mundo se tratava da necessidade de receber, levar consigo e pagar por todas as ofensas que tanto aqueles sentados ali, como toda raça humana haviam realizado contra Deus. Quando analisadas as palavras do profeta Isaías, se torna claro que Jesus Cristo cumpre cabalmente seu propósito aqui nesta terra:

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53:4-5).

Fomos alcançados pela maravilhosa graça de Cristo Jesus, mas fico me perguntando quantas pessoas temos na igreja que talvez estejam ainda como os irmãos de José. Neste ponto, a eles ainda faltava o esclarecimento de que José era o benfeitor. A eles ainda faltava o senso e a percepção de que estavam recebendo benefício de quem haviam ofendido. É bem fácil confundir o recebimento de um favor que não merecemos com graça. Mas ela não chega nem perto. O pastor e amigo Rodrigo Suhett, por vezes, cita A.W. Pink para enfatizar acertadamente que graça é um favor não merecido sendo ofertado a ofensores.

Para entendermos o que é graça temos que lembrar das palavras de Jesus na ceia com seus discípulos. "Este é o meu corpo e o meu sangue que é partido/derramado por causa de vós". E assim entendermos o privilégio de que esta é a mesa que o mestre nos chamou a assentar. É desta mesa que diariamente deveríamos nos lembrar e nos alegrar. Esta comunhão que foi proporcionada, porque o Senhor não decidiu pagar o mal que nossos pecados fazem a ele com a sentença que merecíamos, mas Ele graciosamente decidiu ofertar o bem que tanto precisávamos para que estivéssemos diante de sua presença e compreendêssemos que seu nome é manifesto de maneira gloriosa e inigualável. Que Cristo sempre nos ajude e nos encaminhe ao entendimento do Evangelho.

A Ele toda honra e toda glória!

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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