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A reversão da primogenitura em Gênesis como mostra da Soberania Divina

Gn 38.27-30: “E aconteceu que, estando ela para dar à luz, havia gêmeos no seu ventre. Ao nascerem, um pôs a mão fora, e a parteira, tomando-a, lhe atou um fio encarnado e disse: Este saiu primeiro. Mas, recolhendo ele a mão, saiu o outro; e ela disse: Como rompeste saída? E lhe chamaram Perez. Depois, lhe saiu o irmão, em cuja mão estava o fio encarnado; e lhe chamaram Zera.”

A
Bíblia tem alguns textos bem estranhos... Esse que lemos acima, com certeza, é um deles. Em primeiro lugar, se você perguntar a médicos e enfermeiros, 10 em cada 10 dirão que nunca viram, no momento do nascimento, uma criança colocar a mão “para fora”, como se quisesse ganhar uma corrida com seu irmão gêmeo para ver quem seria o primeiro a nascer. Como cremos na inerrância das Escrituras, cremos que esse é um fato verídico, mesmo que extremamente incomum e improvável. Mas, mais intrigante do que o relato em si, é a utilidade de tal descrição no relato bíblico. Sendo a Bíblia um livro inspirado por Deus, como essa estranha história serve de edificação para o povo para quem Moisés escreveu e para a cristandade ao longo dos séculos? Será que temos algum proveito nessa história pitoresca além de estimular nossa imaginação?

 

Creio que, na verdade, essa é apenas mais uma “pista” na trilha que nos leva a descobrir algo muito maior. Como em um caminho de pedras no meio de um jardim, essa é apenas uma das pedras que nos conduzem em uma direção até que possamos perceber o destino final dessa trilha. Essa história nos fala sobre um tema recorrente no livro de Gênesis e que nos conduz até Cristo.

 

Gênesis 38 mostra a história de Tamar. Ela fora casada com o Er, o filho primogênito de Judá, mas este morreu sem deixar descendente. Para suscitar descendência a seu primogênito, Judá, para cumprir a lei do levirato, a entrega a Onã, seu segundo filho para que ele possa deitar-se com ela e suscitar descendente a seu irmão falecido. Entretanto, Onã, que era perverso como seu irmão mais velho, também morreu sem que Tamar engravidasse. Só havia restado um filho homem de Judá e este, temendo que seu caçula morresse como os irmãos, como se Tamar fosse um tipo de “viúva-negra”, a engana dizendo que o menino ainda é jovem. Anos se passaram e Judá, que havia mentido para Tamar e negado descendência a ela por impedir que se relacionasse com seu filho mais novo, acabou tendo relações sexuais com ela, confundindo-a com uma prostituta. Dessa relação, nasceram os gêmeos que vimos no texto inicial desse artigo.

 

Que reviravolta na história! Tamar agora é mãe não de um, mas de dois filhos gêmeos, nascidos de uma relação sexual com Judá. Judá, que a havia enganado, agora foi enganado por ela.[i] O mais impressionante é que desse menino, Perez, virá a descendência do rei Davi e do próprio Jesus.

 

Note o que essa história nos mostra. Primeiro, a graça de Deus que alcançou uma mulher desprezada, levando-a a alcançar a maternidade e entrar na genealogia de Jesus (Mt 1.3). Em segundo lugar, nessa gravidez de gêmeos, o filho primogênito (aquele marcado com o cordão vermelho posto na mão) não é o sucessor da linhagem prometida em Gênesis 3.15, mas a primogenitura é revertida para Perez, o segundo filho que “rompeu a saída” na hora do nascimento. O texto é claro ao mostrar que, para todos os efeitos, Zera, o menino que colocou a mão para fora e foi identificado pelo cordão no braço, é o primogênito. Mas a promessa messiânica se cumpre na vida de Perez, o segundo ao nascer.

 

Essa reversão da primogenitura na promessa messiânica é um dos temais mais presentes no livro de Gênesis. Note que Caim, o primogênito de Adão e Eva, não é quem tem a benção de seguir na linhagem da semente da mulher, mas Sete, o terceiro filho. Jacó é o segundo filho de Isaque, mas dele (e não de Esaú) nasceriam os patriarcas, que dariam origem às tribos de Israel e, consequentemente, ao Messias. O filho primogênito de Jacó é Rúben, mas o Messias viria da linhagem de Judá, o quarto filho. Quando José levou seus filhos Manassés (seu primogênito) e Efraim para serem abençoados por Jacó, este cruzou as mãos e abençoou o mais novo como se fora o primogênito, dizendo que o mais novo seria maior que o mais velho.

 

É verdade que, em outras ocasiões, a linha dos primogênitos segue a promessa, como era de se esperar. Por exemplo, da linhagem de Sem, primogênito de Noé, seguiria a semente de Abraão, Davi e chegaria até Jesus.

 

Essa constatação nos indica algo importante que é o propósito do uso dessas reversões das primogenituras em Gênesis: Deus não está preso a convenções ou ditames humanos. Deus segue seu próprio caminho. Sua vontade é soberana e, soberanamente, Ele escolhe quem ele quer! Ele não precisa adequar seus planos para seguir o que imaginamos ou o que seria mais natural para nós.

 

Da mesma forma, podemos ver em todos esses exemplos de reversão a graça de Deus. Ele escolhe e alcança pessoas improváveis! Aquelas que seriam rejeitadas por nós são alvo da sua misericórdia graciosa. Se olharmos para nós, veremos que não éramos os melhores, os mais santos ou os que mereciam algo do favor divino. Não! “Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas [...] e as coisas fracas do mundo” (I Co 1.27). Ele reverte as expectativas humanas e alcança homens e mulheres como nós, para que sua glória seja vista em nossas vidas.

 

Por fim, esse uso das reversões da primogenitura também nos lembra que todo o orgulho e soberba no coração dos homens é despropositada e uma ilusão. Não temos nada de valor em nós mesmos. O único tesouro que temos é seu Espírito que habita em nós e não o recebemos por nada que tenhamos feito, mas exclusivamente pela sua graça. Logo, é tolice vangloriar-se de qualquer coisa, mesmo da própria salvação. Como somos salvos pela graça, mediante a fé somente, nem disso podemos nos orgulhar. Não fizemos nada para recebê-la e tudo o que fazemos após recebê-la é fruto do agir do Espírito Santo em nós.

 

Que o Senhor nos ajude a viver uma vida que glorifique o seu nome, livres do orgulho e confiados na Graça soberana de Deus!

 

 

 

 

 



[i] O tema do “enganador enganado” é outro tema muito presente no livro de Gênesis.  Além desse texto de Judá e Tamar, esse tema aparece em outras relações. Como exemplo, lembre-se de como Jacó enganou seu pai Isaque e é enganado por Labão ao receber Lia (e não Raquel) como esposa.

 

 

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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