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 Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. (João 3.1)

 

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icodemos era mestre e um dos principais entre os judeus. Ser um dos principais entre os judeus significava ser um personagem de proeminência social, política e econômica. Nesta sociedade não havia a compartimentação comum de nossa realidade ocidental. Logo, a relevância dele perpassava todas as esferas daquela comunidade...e Nicodemos era um dos principais!

Para entendermos este relato será bom vermos algumas considerações sobre esse Evangelho. Nessa avaliação dos aspectos de João três, precisamos lembrar que este capítulo deve ser entendido como continuidade da temática percebida nos capítulos anteriores.  Desde o primeiro capítulo o autor desenvolve uma apresentação progressiva da pessoa de Jesus. O autor fala dele como o Logos Criador, como a verdadeira Luz e como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Agora Jesus é procurado por um homem religioso, líder, que inicia uma conversa que indica seu interesse acerca de quem é Jesus e qual a sua relação com o Deus dos Céus. O mestre Nicodemos se interessa por Jesus. Jesus é alvo de seu questionamento.

Seguindo, precisamos observar como esse diálogo se desenvolve de modo progressivo. Identificamos a indagação de Nicodemos e o início da revelação, por parte de Jesus, acerca da essencial necessidade humana. Jesus mostra a condição do mestre Nicodemos e nós percebemos como isto é um emblema da realidade de todos homens, ali representados por um. Ou seja, o que será exposto a Nicodemos se revela como a condição natural de todo ser humano. Já na segunda parte dessa conversa, Jesus se revela a ele como o meio exclusivo pelo qual vem a salvação do homem. A redenção das angústias existenciais e eternas de Nicodemos estava diante dele. Era Deus em condição humana diante dele, o verbo que se fez carne com quem ele mesmo falava.

Acerca de Nicodemos, que comentamos no preâmbulo, não se sabe muito, mas sabemos que era líder religioso entre os judeus. Logo, podemos concluir que era alguém de muito conhecimento, de grande proeminência religiosa e política e projeção social de destaque. Dentro deste cenário, ele foi procurar Jesus a noite. O fato de ele ter ido se encontrar com Jesus a noite pode ter relação com o fato de ele querer manter uma discrição. Talvez tentasse evitar uma exposição pública, evitando a associação de sua imagem com a dos humildes e pecadores que seguiam a Jesus Cristo ou simplesmente não revelar suas fragilidades. Afinal, ele era mestre...um dos principais entre os judeus, como poderia carecer de Jesus? Talvez, a noite possa ser simbolicamente relacionada também com sua condição de obscuridade acerca da verdade. Não se sabe mais além do que o descrito. No entanto, este Nicodemos compreende que Jesus é Mestre, por isso o chama de Rabi, e ainda, reconhece que os sinais realizados por ele apontavam para a sua relação com Deus. Ele vê algo especial em Jesus, mas não de fato quem ele era.

Na construção da conversa, Jesus o responde de forma inesperada e introduz um diálogo revelador. Ele usa uma expressão que vai repetir muitas vezes em seu ministério: Em verdade, em verdade te digo, o que denota clara distinção entre sua fala e a dos profetas do Antigo Testamento, que Nicodemos bem conhecia e que usavam expressões como: Assim diz o Senhor.  Jesus fala com autoridade superior a dos profetas anteriores, trazendo para si a autoridade divina. Nicodemos está diante do próprio Deus e não percebe. Suas dúvidas poderiam ser sanadas, mais do que isso...sua vida poderia ser definitivamente acolhida pelo Salvador.

Neste diálogo, Jesus diz a ele que seria necessário nascer de novo para ver Reino de Deus. O fato de, neste momento, Jesus não falar acerca de entrar no Reino de Deus, mas de VER O REINO DE DEUS, pode estar associado ao fato de Jesus primeiro falar com Nicodemos sobre o conhecimento que faltava ao líder fariseu, que não podia ver a verdade. Por sua interpretação fundamentalmente materialista e terrena, Nicodemos revela sua incapacidade, por si só, de compreender o ensino do Mestre, mesmo sendo mestre entre os judeus e homem de grande proeminência, ele não entende. 

Assim Jesus segue, e nisto se amplia o significado de novo nascimento, inserindo um caráter além daquele descrito por Nicodemos, mostrando que o nascimento por ele referido tinha a ver com uma intervenção regeneradora divina e com a purificação manifesta no batismo. Depois, Jesus faz distinção entre o caráter natural do homem carnal e da realidade possível a partir da ação regeneradora do Espírito, por isso diz: O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. E por último, neste trecho, Jesus é enfático para ratificar a incapacidade humana, representada por Nicodemos, de compreender a regeneração por si só.  Jesus mostra como o novo nascimento se dá a partir da ação divina, assim como o soprar do vento. A condição de Nicodemos está exposta: ele carece de algo novo que só pode ser realizado por Deus...sua relevância social e religiosa naquele momento não tinha nenhuma validade! Sua vida carecia de um recomeço!

Então, é quando chegamos a segunda parte do diálogo.  E nele vemos a não-compreensão de Nicodemos se evidenciar e se confirmar: Como pode suceder isto? E Jesus logo confronta aquele homem com uma pergunta impactante: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? Ele não havia compreendido o que Jesus falara e então Jesus começa a aprofundar a sua explanação se apresentando como: 1 Aquele que vê e testifica, o que tem toda a autoridade e poder; 2 Aquele que estava no céu e se fez homem; 3 Compara-se com a serpente levantada no deserto, usada simbolicamente para curar aqueles que estavam feridos e condenados a morte; 4 E por último se apresenta como o Filho de Deus, que pelo poder de seu nome e pelo amor de Deus Pai, pode dar a vida eterna ao mundo que já está julgado e condenado.

Depois de mostrar a condição de Nicodemos, agora Jesus fale de si mesmo. O necessitado e a cura estão um diante do outro. Se lembrarmos como Jesus iniciou a conversa, com a definição de que era necessário novo nascimento para ver o Reino de Deus, poderemos perceber como ele vai progredindo a revelação de si mesmo como aquele único capaz de promover a visão e a entrada do Reino de Deus. A salvação é ele. Logo, é ele as Boas Novas para Nicodemos e para todo aquele que nele crê!

Na última etapa deste diálogo revelador, Jesus torna claro sua condição de luz num mundo de trevas. Um mundo onde são reveladas as más obras dos homens, mesmo que mestres, mas que rejeitam o Cristo. E por fim, deixa um ultimato para o líder fariseu, que naturalmente considera suas obras superiores e a si mesmo igualmente superior, revelando o quanto a ideia de que boas obras estão associadas exclusivamente a presença da Luz, que é o Cristo. Deixando a certeza que tudo sem ele é vão.

O relato do encontro de Jesus com Nicodemos, portanto, pode nos fazer perceber que ser um dos principais pode ser agradável – o que é desejado por muitos também em nosso tempo – mas, nascer de novo é incomparavelmente melhor! Podemos chegar a conclusão, exposta pelo próprio Jesus, que o alcance do mais alto status humano não altera a sua mais profunda necessidade. Logo, repense sua vida, metas, objetivos e a validade de sua existência e de tudo o que você faz e procure, de verdade, o Mestre que pode te dar a vida eterna, te fazer nascer de novo.

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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