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500 ANOS DA REFORMA: SOLI DEO GLORIA!

Jd 24-25: "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!"

E
stamos comemorando 500 anos da Reforma Protestante. Há exatos 500 anos, no dia 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero, um monge agostiniano, afixava na Catedral de Wittenberg suas 95 teses, o que se tornou o marco histórico para a Reforma Protestante. Sua teologia contrastava fortemente com o pensamento Católico Romano da sua época e o estopim foi sua crítica à venda de indulgências e cargos eclesiásticos (a prática que ficou conhecida como simonia, em alusão a Simão que havia tentado comprar o poder do Espírito em At 8.18-19), à prática de penitências e à salvação por outros meios que não somente pela fé. Sua 32ª tese dizia claramente: “Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante pagamento de indulgência.

 

Entretanto, o que ocorreu nesse dia não foi algo isolado e sem precedentes. Lutero havia decidido seguir sua vida nos estudos de Direito até que, em meio a uma tempestade, temeu pela própria vida e fez uma promessa a Sant’Ana de que, se sobrevivesse àquela terrível tempestade de raios, se devotaria como monge. Tornou-se um monge agostiniano e, no monastério, estudou a teologia de Agostinho de Hipona, as obras clássicas dos Pais da Igreja e os textos bíblicos nas línguas originais. A leitura da epístola de Paulo aos Romanos o impactou profundamente e mudou radicalmente a sua forma de ler e interpretar as Escrituras Sagradas. No prefácio ao seu comentário sobre a epístola paulina, ele declara apaixonadamente: “Esta carta é verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para o ocupar com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma. [...] Quanto mais alguém lida com ela, mais preciosa ela se torna e melhor ela saboreia.

 

O que se pode perceber é que todos esses eventos (a tempestade de raios, a promessa de devoção, o estudo das Escrituras e dos livros de Agostinho) não foram fatos fortuitos, mas mostras da providência divina que conduziram Lutero pela estrada da vontade soberana de Deus. A percepção da graça divina, capaz de justificar o pecador, moldou sua interpretação das Escrituras e o fez perceber como a Teologia Católica Romana havia se desviado da verdade. Quase dois meses antes da publicação das suas 95 teses, no dia 4 de setembro de 1517, Lutero havia afixado suas 97 teses contra a Teologia Escolástica, na qual refutava a forma aristotélica de interpretação da Bíblia, defendia que a justificação era exclusivamente uma ação graciosa da parte de Deus e que os homens não podiam contribuir para sua própria salvação. Nas suas próprias palavras: “Da parte do ser humano, entretanto, nada precede à graça senão indisposição e até mesmo rebelião contra a graça.

 

O que o reformador alemão percebeu é que nenhum homem tem em si nenhuma capacidade de obter, por seus méritos, a salvação ou ser declarado justo por Deus. Todos os nossos bons atos são decorrentes da graça de Deus, mesmo aqueles que parecem ser mais rotineiros e naturais. Mesmo “um ato de amizade não provém da natureza [humana], mas da graça preveniente.

 

Por tudo isso, mesmo que Lutero tenha afirmado que a Justificação somente pela Fé é a doutrina pela qual a Igreja se mantém de pé ou cai, o propósito daquele movimento reformista iniciado em 1517 era bem claro para ele: Glorificar o nome de Deus! Quando questionado sobre seu papel na Reforma Protestante, afirmou com veemência: “Se a obra [da Reforma] é de Deus, quem a pode barrar? Se ela não é de Deus, quem a pode promover? Não a minha, nem a sua, nem a nossa, mas a tua vontade seja feita, Pai nosso que estás no céu” e, ainda, “Apenas acionei a Palavra de Deus, preguei e escrevi; no mais, nada fiz. Não fiz nada; a Palavra fez e conseguiu tudo. Eu deixei a Palavra agir”. Lutero não buscou a glória própria. Não era seu interesse que seu nome fosse exaltado ou mesmo ser reconhecido como o líder de uma igreja nascente. Seu interesse maior era que Deus fosse glorificado em todas as coisas!

 

Todo esse sentimento de propósito em glorificar o nome de Deus (e não à Igreja ou a homens) levou Lutero e os demais reformadores a expressão: Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus). E é exatamente essa visão que Judas apresenta no final da sua epístola. Nos dois últimos versos (Jd 24-25), ele reconhece que Cristo é quem nos preserva e nos purifica. Ele é “poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória”! Que expressão fantástica! Cristo não somente nos salvou, o que seria muito maior do que poderíamos fazer, mas ele mesmo nos guarda e nos santifica! E ele mesmo irá nos apresentar diante da sua Glória.

 

Quando os reformadores saíram de um caminho de erro teológico e passaram a enxergar a Escritura Sagrada como a única fonte de orientação divina (Sola Scriptura), era Cristo quem os estava “preservando e guardando de tropeçarem”. Quando seus olhos foram abertos para perceber que a salvação é somente pala Graça (Sola Gratia) mediante a fé (Sola Fide) e não por méritos humanos, era Cristo os “impedindo de tropeçar”. Quando tiveram suas mentes iluminadas para entender que somente Cristo é o único e suficiente salvador (Solus Christus), era o próprio Cristo quem os estava preparando para “apresenta-los diante da sua glória”.

 

Judas encerra sua epístola declamando em alto e bom som: “ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos”!

 

Que o Senhor nos ajude. 500 anos após a reforma protestante, devemos nos lembrar que esse movimento do século XVI, que nossas igrejas locais, que nossa vida cristã e que todo o nosso estudo e conhecimento teológico devem ter somente um propósito: Soli Deo Gloria!

 

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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