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SUPER-HERÓIS NÃO EXISTEM!

Tg 5.16-18:[...] orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos.” 

S
empre gostei de histórias de super-heróis. Na minha infância, as brincadeiras, as festas e os sonhos giravam ao redor de desenhos como Liga da Justiça. O imaginário de muitos meninos, assim como eu, era povoado por super-heróis lutando pelo bem contra vilões e monstros. Os meus preferidos, sem dúvida nenhuma, eram o Super-Homem (isso, assim mesmo... a gente não chamava de Superman...) e o Batman (imagino que o filme “Batman versus Superman” teria sido devastador à minha ilusão infantil. Nesse filme, eles são “humanos” demais... Ainda bem que o vi quando já era adulto o suficiente para resistir...).

Esses dois super-heróis chamavam minha atenção por motivos diferentes. Na realidade, eles são opostos em muitas coisas. Apesar dos dois terem em comum o fato de serem órfãos e terem passado por tragédias em sua infância, o restante das suas histórias é bem distinta. O Batman é um jovem milionário, um tanto quanto sombrio, que prefere agir as ocultas. O Super-Homem é um jovem jornalista de poucos recursos financeiros, tímido e com óculos gigantes, mas que age em pleno meio-dia, a vista de todos. O Batman não tem nenhum poder especial e, por isso, precisa usar sua inteligência (e dinheiro) para fazer armas, carros e um cinto de utilidades de dar inveja ao MacGyver (Outro personagem da TV do meu tempo de menino! Falo desse outro dia...). O Super-Homem, pelo contrário, foi abençoado com poderes inimagináveis, alimentados pela energia do nosso Sol, e um único ponto fraco: Kryptonita! (Aliás, ele deveria ganhar o premio Nobel de Física! Conseguiu fazer o que nem a Teoria da Relatividade de Einstein, com sua relação espaço-tempo, previu. Girou a Terra ao contrário e, assim, fez o tempo voltar para trazer Lois Lane de volta a vida!).

 Muitas vezes, quando criança, transportei essa mentalidade de super-heróis para a minha leitura da Bíblia. Olhava para a história de Davi, Moisés, Elias, Abraão, Paulo e tantos outros com o mesmo deslumbramento que lia as revistas em quadrinhos ou assistia meus desenhos na TV. Imaginava esses personagens bíblicos em um patamar superior, inalcançável para nós “pobres mortais”, pessoas comuns. Lia o relato dos seus feitos extraordinários e me esquecia que super-heróis não existem! Tinha dificuldade de perceber que Deus sempre fez coisas extraordinárias através de homens ordinários! Na minha mente infantil, os meus heróis bíblicos (às vezes, eles eram chamados assim na EBD, o que só fazia aumentar meu deslumbramento...) estavam em outro nível de humanidade. Eram sobre-humanos!

O problema dessa visão é que passei a achar que Deus entendia e tolerava minhas falhas, preguiça e displicência porque, afinal, eu não era um “Samuel” ou um “João Batista”. Eu era, apenas, o Rodrigo, uma pessoa normal. E isso me conduzia, cada vez mais, à preguiça e a procrastinação para a obra de Deus. Se na minha infância sonhava em ser um “Isaías” ou um “Paulo”, assim como desejava ser como meus super-heróis preferidos, na adolescência perdi a fé em super-heróis e comecei a pensar que fazer aquilo que os “heróis” bíblicos fizeram e viver como eles viveram também era algo impossível para mim.

É exatamente nesse impasse que o texto de Tiago, que citei logo no início, se mostra revelador. O irmão do Senhor exorta os cristãos a orarem uns pelos outros e o incentivo é que Elias, um homem como nós, orou e Deus trouxe uma seca. Depois, orou novamente e Deus deu chuva. O argumento de Tiago é: “Orem! Se Deus ouviu Elias, poderá ouvir vocês também, porque Elias não era alguém especial ou um super-crente, mas alguém sujeito aos mesmos sentimentos que nós.” Elias foi um dos grandes profetas de Israel. Reconhecido pelos judeus como um dos mais importantes homens de Deus do passado. Mas Tiago diz: “Ele é igual a nós! Não olhem para Elias como se ele fosse um super-herói!” Elias era apenas um homem ordinário sendo usado de forma extraordinária por um Deus todo-poderoso. Era Deus agindo através dele e, por isso, não havia nada nele que fosse realmente especial, além da presença e do agir do próprio Deus. Isso é encorajador! Homens como eu e você foram grandemente usados por Deus simplesmente porque, pela sua Graça, Ele assim desejou.

Outro texto interessante que colabora com o que tenho dito aqui é I Co 1.26-31: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” A igreja de Corinto passou a respirar a cultura de uma cidade que era movida por disputas filosóficas e esportivas[i] e esse senso de competição infiltrou-se na igreja, de modo que eles julgavam-se superiores uns aos outros. Se por um lado o apóstolo os chama à humildade, também destaca que Deus tem, de forma usual e repetitiva, escolhido os fracos, humildes e loucos. Obviamente, isso não se aplica somente aos irmãos de Corinto, mas a todos aqueles que Ele tem usado em todas as eras. Não há sobre-humanos na história bíblica. Super-heróis não existem!

Jesus admite a mesma ideia ao se alegrar e exclamar: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11.25-26).

É interessante que, apesar da nossa admiração por esses heróis bíblicos, elevando-os ao patamar de seres acima da realidade humana, eles mesmos não se viam assim:

- Elias esteve atemorizado e pediu para si a morte, considerando-se incapaz de resistir às tribulações do ministério (cf. I Rs 19.1-18);

- Nos dias de Elias, haviam 7.000 fiéis em Israel, que nem sabemos os nomes ou os feitos, mas que agradavam a Deus por não se dobrarem diante de Baal (cf. I Rs 19.18);

- Moisés, o grande legislador e libertador do povo de Israel no Antigo Testamento, viu-se como um homem “pesado de língua” e incapaz de fazer o que Deus lhe pedira (cf. Ex 4.10-17);

- Josué, seu sucessor, estava amedrontado diante da missão a sua frente e é necessário que Deus diga: “tenha coragem!” (Veja quantas vezes aparece a expressão “sê forte e corajoso” em Js1.1-9);

- Gideão disse que não podia cumprir seu chamado por ser o menor da família mais pobre da sua tribo (cf. Jz 6.15);

- Eúde, outro dos juízes libertadores de Israel, foi um herói improvável.  O relato bíblico destaca que ele era um canhoto da tribo de Benjamim, que significa “filho da mão direita”, sinal de força (cf. Jz 3.15);

- Isaíasse sentiu impuro para falar a mensagem de um Deus santo (cf. Is 6.5);

- Jeremias via-se como um menino de uma família desprezada[ii] e, por isso, incapaz de atender a voz divina (cf. Jr 1.1-10);

- Pedro, depois de presenciar a pesca maravilhosa, pediu a Jesus: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (cf. Lc 5.8);

- Paulo reconheceu que não era suficiente para a grandiosidade do ministério colocado diante dele (cf. II Co 2.16; Rm 7.24);

- Timóteo se sentia tão amedrontado diante das oposições que Paulo disse que ele deveria reavivar a sua fé, porque Deus não nos deu “espírito de covardia” (II Tm 1.6).

Todos esses homens não se viram como super-heróis, mas como homens falhos nas mãos de um Deus poderoso.

Somos assim. Falhos, pequenos, preguiçosos e amedrontados. Entretanto, não minimize ou menospreze a obra que Deus está fazendo em você e através de você. Coragem! Força! Ânimo! Fique firme! Se você se sentir incapaz de cumprir aquilo que Deus tem te chamado a fazer, você tem razão! Não somos capazes! Lembre-se que “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Alegre-se pelas pequenas coisas que Ele tem feito em seu ministério e pelas pessoas, muitas ou poucas, que tem sido influenciadas pela sua vida. Confie que Ele fará o que lhe aprouver através de você.

Não desanime com resultados aparentemente inexpressivos. Isaías profetizou para um povo que não o ouviu, mas ele é o profeta mais citado pelos autores do Novo Testamento, séculos mais tarde. Jeremias pregou para um povo que não atendeu seu chamado, mas sua profecia serviu de ânimo para os profetas que viveram no exílio, como Daniel e Ezequiel. Jesus cumpriu seu ministério vicário, mas o povo que ouviu seus sermões gritou “crucifica-o”, os discípulos se esconderam de medo e, por fim, após ter pregado para milhares de pessoas, apenas umas 120 pessoas restaram dos seus seguidores, as quais ele incumbiu de evangelizar “até os confins da terra”.

Deus tem usado homens ordinários, como eu e você, para fazer coisas extraordinárias! Deus tem usado “heróis” anônimos para o progresso do seu reino, um passo em cada lugar. Super-heróis? Não existem! Deus usa homens comuns, que se dedicam a Ele, exclusivamente pelo seu poder e graça.



[i] Assim como aconteciam na cidade de Olímpia os jogos Olímpicos, aconteciam em Corinto, a cada dois anos, os jogos Ístimicos, que traziam visitantes de diversos lugares e acirrava o ideal de disputa na mente dos cidadãos coríntios.

[ii] Jeremias era descendente do sacerdote Eli e sua família havia sido desterrada para Anatote, como cumprimento do juízo de Deus pronunciado desde os dias de Samuel. A história da linhagem de Eli até Jeremias é realmente impressionante e mostra a rejeição divina e, ao mesmo tempo, sua misericórdia. Seguir essa linha genealógica destaca ainda mais o impacto das palavras “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5). Essa história é, em resumo, assim: Eli, o sacerdote em Siló, tinha dois filhos, também sacerdotes, que usavam da posição para tirar vantagens e extorquir o povo (Hofni e Finéias). Quando Israel foi invadida, Hofni e Finéias morreram na batalha, a arca da aliança foi roubada e Eli morreu ao receber a notícia da morte de seus filhos e do roubo da arca. Entretanto, um dos filhos de Finéias, chamado Aitube, sobreviveu, cresceu e se tornou sacerdote. Mais tarde, um dos seus filhos, Aimeleque, se tornou sacerdote e ajudou Davi quando ele fugia de Saul. Essa atitude levou Saul a matar 85 sacerdotes, incluindo toda a família de Aimeleque, mas um menino, chamado Abiatar, sobreviveu. Quando Davi se tornou rei, Abiatar passou a ser sacerdote em Jerusalém. Mas quando Davi estava velho, quase para morrer, Abiatar, que era sacerdote, e Joabe, que era comandante do exército, resolveram apoiar Adonias, um dos filhos de Davi, para fazê-lo rei, contrariando o próprio Davi que havia indicado Salomão como seu sucessor. Quando Salomão assumiu o trono, ele matou Joabe e expulsou Abiatar para Anatote para que esse não mais exercesse a função sacerdotal. O texto bíblico diz que esse “exílio” em Anatote aconteceu para cumprir o que Deus dissera sobre Eli (I Rs 2.27). Anatote passou a ser um lugar de “exílio”, desterro dos sacerdotes desprezados. Dentre esses, um descendente de Abiatar era Hilquias e seu filho Jeremias (siga as “pistas” em I Sm 2.27-36; I Sm 3.11-14; I Sm 14.3; I Sm 21.1-9; I Sm 22.11-23; I Rs 1.5-7; I Rs 2.26-27; Jr 1.1).

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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