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Uma reflexão comparativa entre os versículos Gn 39:12 e Jn 1:3

 

Q
uanto mais estudamos a Bíblia mais percebemos o quanto seus ensinos se mostram singulares. Alguém certa vez disse: “Tire a Bíblia da face da terra e o padrão de certo ou errado  estariam  comprometidos”1,  consequentemente,  isso  se  refere  a  sua  potencialidade como palavra advinda do próprio Deus. Essa característica coloca a Bíblia acima dos livros ordinários (comuns), pois como já disse em outros posts, ela tem status de Escritura Sagrada por sua inspiração e inerrância e é definitivamente Palavra de Deus. Não trabalharei por defendê-la contra os que não concordam com minha forma de enxergá-la, até porque ela mesmo ensina que alguns estão cegos para a preciosidade de seu conteúdo.

 

Meu propósito é apontar sua singularidade por meio da observação de algumas palavras. Na verdade, em português, se trata apenas de um verbo, fugir. Essa palavra é curiosa! Ela é usada de várias maneiras, e algumas de formas mais comuns. Normalmente, associamos a fuga ao resultado de alguma derrota, medo, ou perigo. Ao mesmo tempo, podemos perceber que é comum seu uso como orientações tanto ao que se deva fazer quanto para o que não deve ser feito. Há uma vastidão em seu uso e os dicionários normalmente atribuem níveis de significado que se relacionam entre si: 1) livrar-se de perseguição; 2) salvar-se de perigo; 3) evitar (algo indesejável, desagradável), esquivar-se.

 

Na Escritura Sagrada podemos encontrar essa palavra por mais de duzentas vezes, sendo que o maior número ocorre no Antigo Testamento (cerca de 195x). No Novo Testamento, quem mais utiliza a palavra é o apóstolo Paulo (I Co 6:18; 10:14; I Tm 6:11; II Tm 2:22), e me parece que, por seu uso, podemos entender que essa é uma palavra importante para prescrição de uma vida bem sucedida diante de Deus.

 

Embora façamos menção à frente sobre alguns dos ensinos do apóstolo nos versículos citados, gostaria de refletir sobre dois eventos no Antigo Testamento onde a palavra fugir aparece. São duas fugas de dois homens de Deus. Diante de momentos decisivos, esses homens tomam rumos diferentes. Os dois personagens são conhecidos: José e Jonas. Os versículos onde as palavras aparecem são mostrados abaixo:

 

“Então ela,  pegando-o pela  capa, lhe  disse: Deita-te comigo! Mas ele, deixando a capa na mão dela, fugiu, escapando para fora”. (Gn 39:12)

“Jonas, porém, levantou-se para fugir da presença do Senhor para Társis. E, descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, da presença do Senhor”. (Jn 1:3a)

 

Estes textos apresentam dois usos da palavra fugir. Em Hebraico são duas palavras diferentes: nûs, a primeira; bârach, a segunda. As palavras trazem significados muito aproximados às definições que já apresentamos até aqui, acrescentando apenas à segunda uma particularidade pelo modo verbal que aponta para algo que é feito de maneira repentina ou inesperada. É interessante que, apesar de aparentemente ser antagônica a comparação de alguém que foge do pecado com alguém que foge em desobediência (pecando), essas histórias mostram que as duas fugas proporcionam seus ensinos quando entendemos que Deus é a referência que o autor deseja que tenhamos em mente.

 

José, após ter sido vendido como escravo para Potifar, estava prosperando de maneira que até seu senhor percebia que Deus estava com ele (Gn 39:3), mas o próprio José parece demonstrar com seus atos a certeza de que o que acontecia em sua vida não estava desconectado da vontade de Deus e que em tudo, Ele o observava. Poderíamos entender que é isso que o leva a fugir do que, segundo suas próprias palavras, seria um “grande mal”, seria “pecar contra Deus” (Gn 39:9). Deus é quem José tem em mente para evitar se enveredar por caminhos que manchariam seu caráter, que o distanciaria do homem que havia sonhado que seria.

 

Olhando  para  a  outra  história,  temos  uma  ideia  do  porquê  de  o  verbo  fugir  se apresentar como algo repentino. As palavras que antecedem a fuga de Jonas são imperativas da parte de Deus e o convocam a caminhar em outra direção. A ordem não descrevia Társis como destino, e sim Nínive. Mas, subitamente, vemos o profeta de Deus tomando uma direção inesperada. O verbo é empregado pra caracterizar a tomada de uma direção que não estava em conformidade com o que era atribuição de um profeta. Qualquer que observe as prerrogativas do ofício profético sabe que o que Jonas faz é uma contravenção ao próprio ofício,   que   preconizava   a   obediência   acima   de   qualquer   convenção.   O   atender   às determinações do Senhor era levado sempre a sério por esses homens, porque sabiam que um deslize poderia significar grave punição. Alguns profetas tiveram suas vidas transformadas em algo que quase nunca era satisfatório em decorrência de terem sido escolhidos por Deus para missões árduas, mas nem por isso a desobediência era uma opção.

 

É no mínimo assustador ver um profeta com tamanha “audácia”, como Jonas, de desviar-se de fazer a vontade de Deus para fugir de sua presença. Poderíamos confabular várias justificativas para a fuga de Jonas, mas nem precisamos fazer, porque o livro se encarrega de nos fornecer que ele estava preocupado com o bem estar de sua nação, pois os ninivitas eram rivais de Israel. Seu pensamento pode ser traduzido nas seguintes palavras: “Conhecendo que Deus é grande em misericórdia, não quero que esse povo (moradores de Nínive) receba a oportunidade de, se arrependendo, serem libertos por Deus”. De certa forma, alguns têm enxergado Jonas como um tipo de libertador. Alguém que coloca sua vida em risco diante de Yahweh para que o povo seja salvo, pois a não anunciação da mensagem traria continuidade aos planos divinos de destruição da cidade, sem a oportunidade de arrependimento.

 

A mensagem de Jonas traz a lume os propósitos redentivos do Senhor. Estes não se restringem à nação de Israel, mas a todos aos quais estende a Sua graça. Mas, a observação sobre a fuga de Jonas permanece e aprendemos que a tentativa independente de encontrar escape distante de Deus não conduz o homem à prosperidade ou a libertação de seus dilemas.

 

Quando estendemos a comparação novamente dos textos e avançamos para percepção dos resultados, obtemos grandes ensinos. Por causa da manutenção de seu caráter obediente a Deus, a fuga de José produz resultados aparentemente catastróficos. Ele é lançado em uma prisão no Egito, lugar onde normalmente as pessoas estavam expostas à morte ou ao esquecimento. Contudo, a história toma um rumo em que José é levado ao mais alto lugar no reino egípcio, sendo constituído governador do Egito, estando abaixo apenas de Faraó, depois de revelar um sonho que o afligia. Parece que para José, fugir, o conduziu ao exato lugar de onde Deus efetivamente realizaria o completar de Seus desígnios para a vida do jovem filho de Israel.

Na vida de Jonas, percebemos algo diferente. Se sua fuga intrinsecamente revelava até boas intenções para com os seus irmãos, as consequências da desobediência não materializaram suas ações como benéficas a Deus e impactaram seu estado. A prova disso pode ser encontrada por todo segundo capítulo do livro. Sua fuga lhe produziu angústia (Jn 2:2), intranquilidade (2:3), vergonha (2:3) e o pior dos resultados com o qual um homem pode ser confrontado, o afastamento de Deus (2:5-7).

 

Ao relacionar estes dois personagens, reproduzimos imagens diferentes para os dois em todo processo de fuga e resultados: José poderia ser descrito de cabeça erguida, enquanto Jonas, escondido e de cabeça baixa. Cada qual colhe o fruto de suas ações. Notamos assim, um paradoxo na utilização de uma mesma palavra. Em José, quando confrontado com o que desagrada a Deus, fugir é utilizado como imperativo que produz bom resultado. Enquanto que em Jonas, sua fuga é oposta à determinação dada pela palavra de Deus. Isso produz péssimos resultados.

 

É  possível  enxergar  que,  desde  o  Éden,  o  homem  tem  sido  confrontado  com  o paradoxo da fuga. Adão recebeu de Deus o imperativo de fugir do pensamento de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas porque seguiu caminho oposto, descobriu à duras penas que quando não nos esforçamos para uma fuga em obediência a Deus sempre produzimos como resultado a fuga da desobediência. Sendo assim, quando o imperativo fugir não foi recebido por obediência ele foi produzido como consequência. Foi essa a decisão de Adão ao se deparar com seu estado deplorável pós- queda. Ele ainda sentiu o agravo quando foi confrontado com o conhecimento de que uma dessas fugas é impossível, pois ninguém jamais conseguiria se ocultar da presença do Senhor, que tudo vê.

 

Quando   identificamos   a   importância   de   considerar   esse   aspecto   como   um mandamento, mencionamos as orientações de Paulo sobre o imperativo. Temos o dever de fugir da aparência do mal... (I Ts 5:22), da prostituição, dos ídolos, da ganância (I Tm 6:11), das paixões da mocidade. Todas estas admoestações enfatizam a necessidade de cuidar para não sucumbir às tentações. Nossa vida é dotada de imperativos e muitos deles estão ligados ao fato de que devemos fugir daquilo o que desagrada a Deus. Todavia, devemos estar atentos à realidade que de uma forma ou de outra estamos empregando o verbo em nosso cotidiano. Se fugimos daquilo o que desagrada a Deus nos aproximamos do desfrute de suas promessas, mas se fugimos de sua presença por meio do abraçar de nossas próprias convicções, do amor aos nossos prazeres, da desobediência, sabemos que a angústia, a intranquilidade, a vergonha e o consequente afastamento de nosso Senhor serão nossos tormentos.

 

A Bíblia afirma que, por Cristo Jesus, os crentes foram chamados para a obediência (Rm 1:5) e por meio da obediência à Palavra de Deus estamos sendo habilitados para as boas obras (II Tm 3:17). De certa forma, isso também pode ser visto nas decisões que tomamos em nossas vidas. Uma coisa precisamos ter certeza, Deus está atento aos nossos passos. É inevitável  que  se  andarmos  por  caminhos   que  desagradam   a  Deus,  teremos  como consequência a fuga da vergonha, mas se clamarmos por misericórdia e nos fortalecermos no Espírito de Cristo, Deus pode fazer com que nossos caminhos, ainda que em meio ao sofrimento, convirjam para a concretização de Seus belos planos. O que faremos? Pra onde fugiremos?

 

Que o Senhor tenha misericórdia de nós!


1 Faço essa citação em um livro que escrevi em parceria com um amigo. ARAÚJO, Ilton Sampaio de; BENTO, Jonatas. A Razão da Nossa Fé. CP Douloi: Rio de Janeiro, 2014


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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